Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
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Os Médicos e a cultura

O catalão José de Letamendi, catedrático de Anatomia em finais do século XIX, foi o pai da célebre frase: “O Médico que só sabe de medicina, nem de medicina sabe” (frase por vezes erradamente atribuída a Abel Salazar).

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Queria ele significar com isso que o médico, para compreender e saber exercer a arte médica na sua plenitude, não pode ficar confinado unicamente ao saber da ciência médica e por isso deve cultivar-se. Esta cultura que o médico deve possuir adquire-se nos livros, lendo e estudando e, naturalmente, depois, aplicando-a na vida do dia a dia.

Sir William Osler, considerado o pai da Medicina Interna ensinou-nos que: “O exercício da medicina clínica tem um grande componente literário. O domínio da linguagem é imprescindível… Para compreender as emoções, os temores, as preocupações, e os conflitos emocionais dos doentes muitas vezes não há melhor fonte de informação do que a literatura”. Percebe-se, então, que como alguém disse: “…a medicina tem um sabor diferente quando é praticada por médicos cultos, não só porque eles parecem compreender melhor a complexidade do sofrimento humano, mas também porque desenvolveram capacidades as quais lhes permitem desfrutar de uma forma mais completa do exercício da sua profissão”. Por isto, Osler estimulava os alunos de medicina e os médicos para que fizessem uma biblioteca e adquirissem hábitos de leitura.

Estes princípios continuam a valer e hoje em dia até ganham uma atualidade maior. De facto, a medicina baseada na relação médico-doente, base da medicina hipocrática e que durante séculos presidiu ao exercício da atividade médica, perdeu-se com a funcionalização dos médicos e a transformação dos hospitais e centros de saúde em repartições públicas, com horários rígidos, limitações de tempo para atender os doentes, combate às listas de espera e a transformação dos doentes em utentes ou clientes.

Neste clima de degradação do exercício da medicina, muitos doentes que acorrem ao hospital não procuram o “seu” médico com o qual havia a tal relação de confiança, meio caminho para a cura, mas recorrem à instituição com um espírito de exigência e de reivindicação. Nestas circunstâncias, o médico é olhado, não como uma pessoa que está ali para ajudar o doente, não como um confidente, não como um amigo, mas como um qualquer funcionário ao seu serviço.

É por isso que, não raramente, se ouve a frase: “Eu desconto, tenho direito”. Refira-se a este propósito que isto não é verdade porque a saúde e os hospitais são pagos pelos impostos de todos os portugueses e não pelos tais descontos. Os trabalhadores descontam sim para a segurança social, que paga as baixas, os subsídios de desemprego e as reformas.

O Serviço Nacional de Saúde tem prestado inestimáveis serviços aos portugueses e, apesar das lutas políticas em que o querem envolver e de alguns ataques demagógicos e sensacionalistas de uma certa imprensa (?), continua a ser um dos melhores do Mundo. A maioria dos portugueses sabe que assim é e, por isso, continua a confiar no SNS. Claro que, para manter o SNS com o nível de qualidade e de eficiência que tem tido, é necessário saber geri-lo, nomeadamente, sob o ponto de vista económico-financeiro.

Também sob este aspeto, é muito importante a ação dos médicos e, por isso, quanto mais bem formado e preparado estiver o médico, melhor compreenderá os objetivos e as limitações em causa, e, assim, estará em boas condições para exercer junto dos doentes a respetiva ação pedagógica e educativa.

O prestígio da bata branca está, hoje em dia, muito abalado, mas, mesmo assim, o médico continua a ser a última réstia de esperança para o sofredor, como sabiamente nos ensina Miguel Torga: “E mesmo empobrecidos daquele prestígio carismático, continuamos a ser, nós médicos, a última porta aberta, a que bate, confiado o desespero. O povo atormentado necessita cada vez mais dos nossos cuidados e da nossa devoção. Com todos os defeitos, que a civilização consumista infelizmente agrava, somos ainda os Cireneus compassivos do calvário humano”.

O exercício da medicina não pode nem deve prescindir do médico culto e humanista, daquele que não se limita ao estudo da ciência e à sua aplicação prática que muitas vezes transforma o ser humano doente num qualquer número de uma estatística! António Alçada Baptista no seu livro “A Cor dos Dias” toca exatamente nesse ponto.

Mesmo os próprios médicos não eram exatamente uns cientistas. A sua presença junto dos doentes era qualquer coisa de mágico e eram homens de cultura porque eu acho que eles, mais do que ninguém, estavam postos perante o sofrimento e a morte.

É portanto, essencial sensibilizar os alunos de medicina e os médicos para as necessidades de adquirirem cultura geral e habituarem-se a conviver com livros, filmes, teatro, música, museus, etc. Em relação a esta matéria, as Faculdades de Medicina têm o dever de contemplar nos seus planos de estudo algumas destas áreas.

 

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