Terça-feira, 21 de Abril de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

A queda do Ocidente

Lembro-me de ler algures, num passado já não muito recente, que os ocidentais se preocupam demasiado com o seu declínio. Uma atitude que revelaria uma certa arrogância histórica acompanhada do seu pior inimigo, a neurose pueril.

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O que eu digo a esse escritor ocidental é que acho engraçado que ele aceite, nele próprio, a crítica à revisão crítica do estado da sua civilização sem, contudo, se aperceber do absurdo paradoxo da sua posição. Até porque sendo um grande adepto da crítica externa, não resisto a uma enviesada análise do Ocidente por um ocidental. Porquê? Por causa da nuance.

Como todas as críticas feitas nas amarras da escrita em “meia dúzia” de carateres, esta é quase, e apenas, um exercício de enumeração, e este “quase” serve para desculpar as minhas limitações e libertar o seu tempo nestes dias de verão. Parto da premissa que chegamos ao declínio apenas depois de pouco mais de uma década após atingirmos o auge deste último ciclo histórico, com a queda da União Soviética, o que coloca o que é hoje a Federação Russa fora do Ocidente, diria eu por sua própria vontade (com as devidas vénias aos russófilos que se sintam ofendidos).

Todos nós nos lembraremos bem, por maioria de razões em Portugal, de quando o Ocidente decidiu que não tinha dinheiro, algures nos anos de 2007/2008 e seguintes, depois da grande hecatombe do chamado subprime. Reparem que as nações, no seu conjunto, mais ricas do planeta e das mais abastadas da história da humanidade, decidiram tornar-se frugais. Um recauchutar da mentalidade cristã protestante sem o reavivar da ética do trabalho, porque essa tinha sido exportada (e continua hoje) para a Ásia. O resultado foi a criação da austeridade expansionista e um claro e aparente aumento das desigualdades sociais, numa expedição punitiva sem nexo, sobretudo quando se gerou uma sociedade de ganhadores e de perdedores no trabalho, ao mesmo tempo que se agigantaram os lucros das multinacionais. As consequências evidentes são o desencanto com o que se decidiu chamar de globalização e com os setores políticos que irrefletidamente a seguiram e continuam a seguir.

A falta de dinheiro leva também à falta de investimento. As ciências sociais são um excelente exemplo, porque mostram a falta de ambição dos povos e das suas elites. Menos historiadores, menos filósofos, menos sociólogos, num sistema de precarização académica que amputa a reflexão crítica e nos deixa mais expostos a influências de agendas externas (mais uma alfinetada nos russófilos). Claro que agora existe neste momento um ataque reacionário da academia, porque os mais conservadores chegaram ao poder nos EUA e acham que academia é de “esquerda”, com possibilidades de contágio na Europa, mas esta é apenas a fase final de uma tendência com décadas. Chegou ainda, e também às ciências exatas, onde a investigação deixou de se centrar nas descobertas fundamentais para se tornar escrava da transferência de conhecimento para as empresas, e de uma suposta substituição pela inovação, seguramente para recuperar o dinheiro que perdemos. O foco na aplicação do conhecimento em detrimento da descoberta, que tem tido, a meu ver, efeitos nefastos no desenvolvimento humano, apenas com algumas exceções tecnológicas vindas dos EUA, agora também em perigo pelos retrógrados do movimento MAGA.

Finalmente, antes de interromper a análise às mudanças de atitude socias e políticas do ocidente, gostaria apenas de referir como este agora decidiu que não tem capacidade ou interesse em manter a paz nas suas fronteiras mais a leste. Nem sequer de exercer um poder de moderação nos claríssimos excessos do estado de Israel, que continua a dizer que não há palestinianos inocentes, ou em conseguir que uma pobre ex-potência mundial tenha estado a ditar a totalidade dos termos de anexação territorial à Ucrânia baseada numa guerra de conquista tão ruinosa para a Rússia que será, com certeza, um caso de estudo dos futuros e abastados académicos chineses.

Abraço e boas férias, se ainda for caso disso.

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