Sábado, 6 de Dezembro de 2025
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Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

As cidades à nossa volta

A ideia de que as cidades são como as pessoas não é original. Italo Calvino, em “As Cidades Invisíveis”, já a tinha celebrizado.

Há cidades que trabalham muito, outras que gastam muito. Há cidades que se tornam grandes enquanto outras se tornam mais esquecidas. Há cidades que aparecem do nada e há cidades que desaparecem de repente. Há cidades que, sem as conhecermos, nos dão conforto, outras que, ainda que as conheçamos, nunca deixam de nos surpreender. Há cidades que nos irritam e há cidades que ficam irritadas connosco. Há cidades que nos ensinam sempre coisas e há outras que aprendem connosco. Há cidades que nos acolhem e há cidades que nos expulsam. Há cidades que amam os seus assim como há cidades que nem os seus conhecem. Há cidades que são belas por dia e diferentes à noite. Há cidades adormecidas durante o dia e que vivem durante a noite. Há cidades que parecem brincar e há outras que de tudo fazem uma oração. Há cidades que guardam memórias e há outras que as procuram. Há cidades que perdem memória e há outras que a celebram.
Há cidades que, sem nós, continuam a viver e há outras que sorriem quando nos veem. Há cidades que se enfeitam e há cidades que há muito não reagem. Há cidades abandonadas assim como há outras que vivem. Há cidades que vivem nos bairros mais cheirosos e outras que vivem nas ruas. Há cidades que têm conversa de passagem e há outras que nos contam segredos.

Há cidades que parecem mais novas e há cidades que envelhecem.

Há cidades onde procuramos a infância, a juventude, aquele sorriso ou aquela palavra que numa vez tanto bem nos deixaram e tanta vida nos deram. Há cidades que cresceram em cima de outras cidades e há cidades que puxaram outras cidades. Há cidades que fizeram das outras cidades melhores cidades e há cidades que secaram tudo em volta.
Há cidades repletas de paz e há cidades que precisam de paz. Há cidades cheias de pão e há outras onde falta a partilha. Há cidades que se ligam a outras cidades pelas estradas e há cidades que isolam. Há cidades que são Belém, outras Jerusalém. Há cidades que são pátria outras que são estrangeiro. Há cidades que têm famílias e há famílias que têm cidades. Há cidades que se fecham por causa das pandemias e há pandemias que se curam por causa das cidades. Há cidades que são Natal e outras que se chamam Natal. Há cidades que são Festas e outras que dizem Boas Festas.

Se, em todo o texto atrás, mudarmos ‘cidades’ por ‘pessoas’, teremos pessoas que podem ser cidades também.

Mas o mais importante nesta métrica – uma excelente quadra natalícia e um próspero Ano Novo!

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