Mas será que foi só a sua mulher que este homem agrediu? Apesar de, daquilo que se consegue perceber no vídeo, a violência ser destinada à mulher, esta criança é também uma vítima de violência doméstica.
Crianças ou jovens que não são o foco da violência do agressor, mas que a presenciam e vivenciam, são igualmente vítimas e não é adequado continuar a desvalorizar a violência ‘indireta’, já que as crianças são sempre vítimas diretas mesmo quando a violência ocorre entre outros elementos da família. Nomeadamente, quando observam diretamente o abuso, quando estão no seu quarto a tentar dormir e ouvem conflitos e discussões, veem marcas da violência no dia seguinte, experienciam um ambiente estranho no relacionamento com os pais, entre outras situações. Além disso, há muitos casos em que as crianças são instrumentalizadas contra uma vítima adulta, através de ameaças de “tirar” os filhos, afirmar que o mau comportamento das crianças é a razão das agressões, fazer ameaças de violência contra as crianças e os seus animais de estimação.
Crianças que cresçam e se desenvolvam nestes contextos apresentam um risco significativo de danos ao seu desenvolvimento físico, emocional e social, ainda que estes possam ser imediatos ou futuros. Os neurocientistas têm verificado que as experiências que o ser humano desenvolve na interação com o ambiente são fundamentais e cruciais no desenvolvimento da personalidade, particularmente, as experiências que ocorrem nos primeiros anos de vida, motivo pelo qual as crianças são particularmente vulneráveis a estes efeitos prejudiciais. Quando testemunham violência doméstica, experienciam níveis elevados de stress que podem afetar negativamente o funcionamento cognitivo, prejudicando o desenvolvimento normal do cérebro, o que pode levar a manifestações de ansiedade, depressão, isolamento, comportamento agressivo, irritabilidade excessiva, desobediência, problemas de sono. Além disso, podem vir a reproduzir estes comportamentos mais tarde, quer como vítimas quer como pessoas agressoras, perpetuando o ciclo da violência de forma transgeracional.
É importante olhar para estas crianças como vítimas de violência doméstica, até porque mesmo que não sejam vítimas de violência física, crescer nestes contextos traz consequências que se podem prolongar no tempo, inclusive até à vida adulta.



