Quarta-feira, 5 de Outubro de 2022
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO Ex-Governador Civil, Ex-Deputado, Presidente da Assembleia da Freguesia de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Filhos da guerra

Quando, em 2008, a convite do Governador da Província de Lunda Sul, visitei Saurimo, tive a oportunidade de aprofundar o conhecimento da realidade angolana que, seis anos antes conseguira alcançar um acordo de paz.

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Estranho, podia pensar-se, era o facto de perdurar desde 2002. Lunda Sul era uma das províncias de Angola com marcas de desenhos de países que tinham povos, de um lado e de outro da fronteira, a testemunhar quão difícil era promover a paz na região. A guerra civil que se seguiu à independência tinha deixado marcas nas populações. Nos mais velhos e nos mais novos. As crianças são sempre dos que mais sofrem com as guerras.

Ocorreu-me a lembrança desta visita quando, numa das reportagens sobre o funeral de José Eduardo dos Santos (JES), um dos angolanos entrevistado se referiu a ele como tendo posto fim à guerra e promovido a reconciliação nacional. Sabe-se que, em momentos destes, uns lembram os aspetos mais negativos e outros os mais positivos. Mas registei o testemunho de três Embaixadores portugueses que o Diário de Notícias convidou para lembrarem o papel daquele Presidente, e que publicou dia 5 de julho. Todos eles se referiram ao importante contributo na promoção da paz no interior daquele país dilacerado pela guerra civil. Um arquiteto da paz.

Pois, na visita que lembro, ouvi de um empresário português, António Cunha, um eloquente testemunho. Quando me falou do Governador da Província, a cujo convite correspondi com aquela viagem, disse-me que JES convidara para Governador um académico, professor numa universidade inglesa, rei de uma tribo que tinha membros em território angolano e congolês, de uma área política exterior ao MPLA. E que isso tinha sido muito positivo para aquela região.

Mereceu, na altura, uma atenção especial a visita que nos foi proporcionada a uma instituição que acolhia crianças, órfãos, algumas delas com deficiência física, resultado do rebentamento de minas que a guerra deixara por ali e que apanhava os mais desprevenidos, crianças, ou adultos que as necessidades levavam ao mato, em deslocações, ou à procura de algo que as satisfizesse. E o Vice-governador, que nos acompanhou, referiu-se a essas crianças como “Filhos da guerra”. Afinal, só havia terminado seis anos antes. A elas e à diocese deixámos um pouco de material escolar que levámos. Foi um pequeno contributo para a reconciliação entre os angolanos, os que estavam de um e de outro lado, todos, filhos de Angola.

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