Terça-feira, 9 de Junho de 2026

Não me metam em contentores

Ainda estou a tentar perceber como é que uma rusga normal e necessária da polícia gerou tanta discussão política, na rua do Benformoso em Lisboa.

Tive logo a impressão de que ia servir para um dispensável e obtuso aproveitamento político, e que muitos dos intervenientes iriam acabar a apanhar muitos cacos. Meter as forças de segurança nos oportunistas e mediáticos jogos partidários nunca vai acabar bem.

E, sobretudo, foi lamentável as lições que toda a gente quis dar às forças de segurança, que, por norma, atuam bem, com a necessária firmeza e desenvoltura, exigindo o cumprimento e o respeito pela lei do Estado de direito em que vivemos. E acusar as forças de segurança de racismo foi o cúmulo. E que a tal rusga tenha levado a manifestações, já entramos no campo do surreal. E o aranzel do comentariado nacional durante semanas, já vamos noutra galáxia. Não esquecer que este tipo de rusgas também se praticou com outros governos, e não gerou o mínimo sobressalto.

Pelos vistos, chocou muita gente que se encostassem pessoas contra a parede, de mãos no ar. Como é que se revistam pessoas em segurança, em grande número? A mim, há situações que me chocam mais. Já vi muitas imagens de muitos jovens, a altas horas da madrugada, encostados a paredes, com nassas que nem se seguram de pé, até em ruas de Lisboa, num indizível estado de degradação, e não vi nenhum clamor social, nem nenhum debate a ser lançado, sobre o questionável estilo de vida das novas gerações. E quando se identificou a existência de redes de tráfico humano no Algarve e no Alentejo, com muitos imigrantes a serem explorados e a viverem em barracas, pardieiros e contentores sobrelotados, em condições aviltantes, não se viu a mesma prontidão e o surpreendente desembaraço que muitos tiveram agora, para se indignarem e manifestarem contra uma correta rusga policial. Ali sim, é que tínhamos razão para ter feito uma profunda reflexão e fazer uma manifestação tipo “Não me explorem ou não me metam em contentores”, para se pedir à sociedade portuguesa, que, em pleno século 21, num país que defende os direitos humanos e que se bate pelo respeito pela dignidade humana, este tipo de acolhimento e práticas são inaceitáveis. Mas não. Quem agora tomou conta da tribuna pública para defender o indefensável ou alimentar frustes guerras culturais artificiais, na altura, pouco ou nada disse, e não se viram os entesados paladinos dos direitos dos trabalhadores a defender quem devia ser defendido.

ARTIGOS do mesmo autor

NOTÍCIAS QUE PODEM SER DO SEU INTERESSE

ARTIGOS DE OPINIÃO + LIDOS

Notícias Mais lidas