Quinta-feira, 23 de Julho de 2026
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Ninguém quer saber da corrupção

Uma área que comecei a trabalhar há 10 anos foi a área da Economia da Corrupção assim como o campo da Economia e Corrupção.

Genericamente, há corrupção, no sentido mais difundido da atualidade, quando os decisores (geralmente, mas não só) com autoridade pública recebem incentivos (geralmente, mas não só) financeiros para decidir em favor de uma dada opção em concurso. Por que isso é mau? Por três princípios. Em primeiro lugar, decisores subornados são decisores enviesados. Significa que o campo está mesmo inclinado contra uma das balizas. Em segundo lugar, o desrespeito das leis leva ao desrespeito da Lei. Logo, comunidades ou sociedades mais corruptas são comunidades com mais tendência para a criminalidade e o banditismo. Em terceiro lugar, com a corrupção perde o contribuinte e perde o sentido de Estado. O contribuinte paga pelo serviço e pelo suborno sem o saber, fica mal servido e desconfia, e com razão, do Estado – seja o governo, seja a câmara municipal, seja a junta de freguesia.

Portanto, devemos todos combater a corrupção? Devemos. Mas ninguém quer saber dela.

Excetuando alguns na Judiciária, juízes incomodados e um outro profeta, apesar dos estudos, dos observatórios, das palestras e das conferências, ninguém quer saber da corrupção.

Políticos são acusados de corrupção e a sua popularidade em nada é beliscada. São detidos, cumprem penas e são reeleitos. Se fossem pedófilos, traficantes de droga, ladrões de bicicletas ou agressores domésticos, seriam mais facilmente repudiados, ostracizados, apedrejados (se ainda houvesse apedrejamento). Mas, um pouco por todo o mundo, a corrupção é mais um ‘pecado venial’ do que outra coisa mais grave. Como numa máxima brasileira popularizada “rouba mas faz”. Ou como noutra máxima – se roubou, roubou a todos e não só a mim. Depois, dado o rendilhado da acusação implícita, os termos são tão técnicos e tão ‘metafísicos’ que a maioria dos cidadãos percebe que o corrupto ganhou dinheiro ilicitamente, tirou dinheiro a alguém, mas ninguém percebe como, quem perdeu, e como se vai pagar no fim. Portanto, é um problema tão bicudo que “eles lá sabem”.

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Finalmente, o terceiro fator para o desinteresse geral pela corrupção é a reduzida percentagem de boatos que são julgados e provados. Portanto, o “diz que disse” ajuda mais a desculpabilizar do que a penalizar.

Por isso, sorrio, mas sorrio mesmo, quando vejo “arautos da justiça” que mais não fazem do que apontar casos de corrupção aqui e além. Têm razão? Terão. Ganham alguma coisa? Talvez o mais importante – respeito pela sua consciência. Porque, de resto, muitas vezes, acabam por fazer mais o jogo dos corruptos do que lutarem contra a corrupção. Para lutar mesmo contra a corrupção, teríamos que mudar as comunidades e a sociedade. Para isso, precisamos de boas escolas, bons formadores, mas, sobretudo, boas famílias. Até lá, merecemos sempre os corruptos que consentimos.

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