Quarta-feira, 17 de Agosto de 2022
Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Mistério da Covilhã

"Que defeitos terá a cidade na encosta da Serra para não reter os médicos que forma?”

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A Covilhã tem alojado, há quase duas décadas, um Curso de Medicina. Em 2001, o município da Covilhã tinha 54.505 habitantes; em 2021, o mesmo concelho tinha 46.457 residentes. Em 2001, o distrito envolvente (Castelo Branco) tinha 208.063 habitantes; em 2021, o distrito de Castelo Branco contava 196.264. Portanto, a conclusão é clara – não é um Curso de Medicina que, por si só, fixa população ou que estanca a perda demográfica.

Longe vão os tempos do João Semana do Júlio Dinis ou do médico de botainas cantado pelo Fernando Namora, pela Agustina (no sublime “O Mosteiro”) ou pelo AJ Cronin (no obrigatório para todo o estudante de medicina, “A Cidadela”)! Ainda mais longe viveram o Esculápio e o Hipócrates. Neste período, em que fechámos Centros de Saúde e Serviços de Urgência, os dados mostram que vivemos mais. Nem sempre melhor, nem sempre tão plenos ou cheios de vida. Mas a sociedade hoje consegue puxar a longevidade dos seniores e até estender a respiração por mais vegetativa que pareça a grandiosidade da vida humana! Inclusivé, temos hoje o luxo moral e constitucional de por os médicos a discutir quando queremos e quando desejamos que a vida humana comece ou nasça ou quando queremos que uma vida humana deixe de aborrecer com o seu peso a comunidade.

Pedimos em duas gerações que os jovens que desejem a Medicina sejam sobretudo dotados academicamente, que comecem uma maratona de notas de excelência desde que frequentam o berçário e temos produções científicas únicas no país. Entretanto, deixámos de premiar o jovem com capacidade de meter a mão na ferida, mas que, oriundo de famílias sem brasões e sem dinheiro para explicadores, não consegue tirar de média 19.5 no primeiro período do 10º ano. Neste processo de seleção, hostilizámos a Ordem, os Sindicatos, dividimos os técnicos de saúde e abrimos dúzias de clínicas privadas. Gerámos médicos altamente competitivos entre si, para quem o Harrison é uma antecâmara do Nobel da turma. Balzac, que escolhia os médicos pela capacidade sonora da gargalhada, teria dificuldades em escolher um especialista em Portugal em 2022.

Mas regressemos à Covilhã. Que defeitos terá a cidade na encosta da Serra para não reter os médicos que forma? Há lá quem diga como dizem os padres dos que vão à Missa e se portam mal – seria tudo bem pior se os tais mal-comportados não fossem à Missa e os outros não passassem os anos da praxe na Covilhã.

No final, ganhamos todos com um médico formado na Covilhã. É mais um médico que decerto acertará mais do que errará num conjunto de diagnósticos aleatórios. É um cidadão que, como qualquer cidadão aleatório, tenderá em ser um bom cidadão. Finalmente, é um licenciado (mestre ou doutorado em perspetiva) com muito boas intenções, em tendência, sobre o futuro. Agora, uma coisa não lhe peçam – pode vestir uma batina de estudante, pode vestir uma bata de médico, mas não lhe peçam para ter aquilo com que só alguns ainda nascem – que é o de amar as terras onde a maioria dos outros só faz e onde só vê turismo.

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