Sexta-feira, 1 de Maio de 2026
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O músico que tocou folha de árvore

Como outros músicos da Banda da Marinha, no início dos anos 70, o Vieira veio reforçar a Banda de Mateus na festa de Chacim.

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O Vieira tinha um olhar matreiro, olhos vivos. Era uma figura popular. O sorriso era indefinido, rasgado, desconfiado. O Vieira era uma figura popular e tinha um sorriso indefinido, enigmático. Tinha carisma.

Em Chacim tocou saxofone barítono e no seu toque mostrou veia de artista. Ali, houve momentos de descontração, brincadeiras reveladoras de um bom ambiente.
Antes da procissão, os músicos depararam-se com cenas hilariantes: um grupo de romeiros, ao lado do coreto, dançava desbragadamente ao toque de uma concertina, sendo esta acompanhada por uma voz injetada de histeria.

Outro grupo ao lado pulava instigado por uma agressiva gaita-de-beiços, e um velho realejo, querendo rivalizar com o grupo concorrente.

Ao fundo da estrada, junto à escola primária, vinha um racho folclórico que trazia cantigas alegres repenicando-se em vozes de falsete. À frente, homens em mangas de camisa branca chupavam a brasa dos cigarros, tocando bombo e ferrinhos, pandeireta e violões, os chapéus pretos inclinados para trás, punham a nu as farripas a taparem as testas suadas.
De súbito o Vieira ataca com uma folha de árvore, uma revoada de notas frescas e saltitantes. E logo o bombo do Zé Barrias, entusiasmado, reforça a modinha em voga na época: “Desfolhei um Malmequer” de Amália Rodrigues. De imediato outros colegas se associam à folha do Vieira. O conjunto fica tão divertido que rapidamente as pessoas ali presentes rodeiam aqueles músicos, quase não os deixando respirar. Já a procissão estava formada e o Vieira ainda soprava embevecido na folha, o padre, preocupado esbraceja os braços compridos e clama pró Vieira: “Ó senhor da gaita, vamos lá prá procissão”.
Como eu recordo com saudade o Vieira e a sua folha que nos seus lábios os sons eram pingos de alegria e que em Chacim contagiaram os músicos e a população que o aclamaram vibrantemente como um herói.

O arraial terminou pelas 4 da madrugada, morando ainda as estrelas no firmamento num céu maravilhoso de paz e suavidade. Antes do regresso a casa, o Vieira exibiu a pedido de algum resto de povo, mais uma modinha no seu mágico instrumento, no final, meia dúzia de ciganos queriam mais e o “chefe” sabujo e toldado pelo vinho implorou: “ó senhor, toque “oitra” moda” e o Vieira tocou sons povoados de mistério como a lua doirada e transparente.

O regresso foi de paz absoluta na camioneta conduzida pelo senhor Mourão que se deixou arrastar na transparência de um céu impregnado de doce beleza. Dentro do velho veículo, imperava um silêncio fundo que havia de durar até à chegada a Mateus.

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