Contudo, aquando da publicação deste artigo, já muita tinta terá corrido sobre as mais que prováveis dificuldades na formação de um novo governo. Quando o resultado de umas eleições é um impasse parlamentar, sem solução aparente, estamos perante um problema democrático. Um problema que não é singular da democracia portuguesa, com certeza, mas que continua a ser muito preocupante.
Ainda assim, ao escrever sem saber dos resultados do sufrágio faço-o com intenção. Serve bem para me obrigar a meditar sobre as razões desta encruzilhada. Vejamos. As razões subjacentes ao atual nó górdio são sobejamente conhecidas. Já muitos escrevemos sobre elas. São a perda da confiança nas instituições depois da crise das dívidas soberanas, a perda de poder de compra sem fim aparente desde então, a impossibilidade de imaginar um futuro melhor que inclua, por exemplo, um sítio digno para viver, a degradação alarmante do SNS, etc… Poderia continuar, mas seria fútil porque na verdade todos, na grande generalidade, concordamos com o diagnóstico. É certo que esta afirmação é um tanto ou quanto exagerada. Existem grandes focos de discordância em assuntos como a imigração ou a educação das crianças. Mas escrevo este artigo partindo da hipótese de que estes pontos de divergência não seriam impeditivos de nos alinharmos melhor. Funcionam antes como aceleradores da entropia social, não estão na sua origem, como nos querem fazer acreditar. Apesar da concordância nos problemas, discordamos imensamente nas suas soluções, como há muito tempo não o fazíamos neste país.
Este é então um problema clássico de perceção. Como o problema da dilatação do tempo que Einstein descreveu na sua experiência mental do relógio de luz. Como ficou mais tarde demonstrado, quanto mais rápido viajamos mais lentamente passa o tempo. Claro que para o nosso dia a dia, estas distorções temporais são minúsculas e inconsequentes.
Contudo, para distâncias muito grandes, como a distância entre a terra e a galáxia de Andrómeda (2,5 milhões de anos-luz) já não é bem assim. Na verdade, se durante uma noite estrelada estiver a olhar na direção de Andrómeda, bem quietinho no seu lugar, e alguém passar nas suas costas a andar e olhar na mesma direção ao mesmo tempo, a luz que o leitor e o seu companheiro verão não será a mesma. Estará, na verdade, separada por anos de diferença.
O paradoxo de Andrómeda tenta exemplificar a relatividade da perceção humana. Já a nossa situação política, apesar do seu infortúnio, não deveria ser explicada pela teoria geral da relatividade. Contudo, em momentos de crise, a complexidade e a desmesura dos problemas transforma os momentos históricos em domínios ilógicos. Neste momento parece, então, que estamos todos a olhar para andrómeda, mas incapazes de ver a mesma luz, ao mesmo tempo, ainda que lado a lado.




