Quarta-feira, 24 de Abril de 2024
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Paulo Reis Mourão
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Os políticos e o pão da terra

No espaço de um mês, o governo do país conheceu dois secretários de Estado da Agricultura, perdeu dois secretários de Estado, ficou sem secretaria de Estado da Agricultura, voltou a ganhar a promessa de recuperar a referida secretaria de estado e, no momento em que estas linhas são escritas, estamos todos nessa suave expectativa.

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Enquanto isso, o inverno fustigou campos e lavradores, as taxas de juro aumentam sobre os empresários agrícolas, o PRR parece tudo menos rural e os trabalhos no campo não podem esperar. Enquanto isso, todos nos sentamos à mesa para comer e mesmo os mais comedidos, os seguidores de planos de nutrição ou de dietética, sem falar nos vegan, comem. Comem e comemos produtos que nos chegam maioritariamente de uma agricultura, venham eles dos campos ao lado ou, cada vez mais, de explorações lá longe, que tanto podem ser na vizinha Espanha como nas produtivas França e Alemanha ou ainda mais longe, em campos da China e de outras paragens.

No espaço de um mês, temos sobrevivido sem secretários de Estado da Agricultura. Ainda que uma Secretaria de Estado seja uma construção endógena – em última análise, cada Executivo ‘cria’ ou ‘destrói’ ministérios e secretarias de Estado em função dos seus interesses, das prioridades estratégicas e da própria estética, esta brincadeira com a Secretaria de Estado da Agricultura peca em diversos espaços:

– Em primeiro lugar, pelo estado de coma, que não chega a ser uma morte politicamente assistida, mas antes um coma politicamente assistido. Ou há, ou não há secretaria de Estado no assunto. Todos – a começar pelas Direções Gerais sucedâneas, pelas indefinidas Direções Regionais dependentes, pelos funcionários do Ministério, indo até a uma miríade de colaboradores públicos ou avençados, dependem de uma definição. Ou há, ou não há Secretaria de Estado da Agricultura.

– Em segundo lugar, este período de sobrevivência nossa na latência da coisa mostra que, afinal, a realidade agrícola, como todos os que a conhecem minimamente, não precisa de um Estado que atrapalhe com papelada, mas precisa de estadistas que ponham as unhas nas enxadas, as mãos nos tratores e os olhos na terra.

– Finalmente, a dificuldade da definição – ou há, ou não há – pode depender da dificuldade de encontrar perfis que reúnam as condições desejadas: afinidade política com o executivo, competência técnica, disponibilidade pessoal, exposição familiar e sensibilidade estratégica. Mas se está cada vez mais difícil encontrar essa noiva, então significa que está a ser cada vez mais difícil haver cidadãos com afinidade política com este executivo, com competência na agricultura, com disponibilidade pessoal, com conforto da exposição familiar e com sensibilidade estratégica. Portanto, neste país, não só escasseiam cada vez mais os agricultores – também são cada vez menos os políticos que queiram fazer alguma coisa pela terra e pelo pão.

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