O marulhar das águas dos ribeiros lembra-nos uma sinfonia inexplicável de paz – essa paz que nos devolve à condição humana.
Os dias parecem mais perfeitos: os sons da natureza estendem-se diante de nós como almofadas que se desprendem da terra, desejosas de suavizar os excessos do verão. E há de vir o inverno, com o frio e as noites quentes à lareira. O sol, talvez por timidez, faz questão de não aparecer, ou surge apenas um instante, fugindo de nós como quem teme perturbar o silêncio da estação.
O outono é tempo de fascínio e de nostalgia. Os que apreciamos o seu frio suave, reforçamos com deleite o cobertor que protege o corpo e embala os pensamentos… no outono, as desgraças alheias doem-nos mais, porque pensamos de outra maneira; pensamos com o coração desperto. Há também os perfumes da época: o cheiro purificador da chuva, onde quer que ela caia – na terra, nas árvores, nas folhas, nas ervas e nos telhados, ou mesmo sobre os nossos narizes e cabeças mal defendidas da passagem do tempo.
Depois das primeiras chuvas, a natureza parece querer dizer-nos que a vida é renovação, é milagre, é continuidade: ciclo eterno em que o homem insiste em destruir por vaidade e ganância.
Mas, raramente sabemos ouvir essa voz funda e misteriosa, tão delicada no seu falar. Nos tempos das férias grandes, sabíamos que tudo mudava com as primeiras chuvas. E essa mudança trazia-nos sensações de frescura e apaziguamento. As pessoas pareciam menos agressivas, mais dispostas a ouvir e a compreender o outro, aplaudindo-lhes as divagações e os sonhos. O outono é, acima de tudo, sinónimo de recolhimento consentido. Podemos ficar em casa nos fins de semana, deixar a noite correr lá fora, e ninguém achará isso estranho.
É o tempo das mantas e das pequenas felicidades domésticas. As orações ganham outro sentido: as palavras tornam-se melodias de exaltação – preces ditas em tempos de incerteza, em travessias de desertos de fé. O outono é fascínio – encanto sem mágoas, sem ódios, sem ressentimentos.
Mesmo que não se espere muito pelo amanhã, devemos saber que possuímos tudo no dia de hoje: podemos sentir, ver, andar e falar os ditames do coração… voamos para longe, mas voltamos sempre a aterrar aqui, onde nascemos.
E quando partirmos, havemos de regressar, se possível, num dia luminoso de Outono. Nos caminhos húmidos, as árvores amarelas, certas de reverdejar, continuarão a alumiar vivamente, como suaves fogueiras, num rápido caminho dos que acreditam que o mundo será sempre um lugar de futuro e de esperança…





