Os eventos socioculturais disponibilizados às populações e as festas populares que caraterizam as tradições dos vários territórios reforçam a ligação entre os que ficaram e os que tiveram de sair. O reencontro é obrigatório e se este tiver lugar numa boa esplanada, acompanhado de um bom vinho, torna o momento singular e memorável. Pois bem, um cenário de “sunset” despertou naturalmente a necessidade de brindar à amizade e, naturalmente, abordar assuntos da esfera profissional e familiar.
Mas, propositadamente, introduzido por aquele amigo que adora causar e observar a polémica, surge o ponto que estava ausente: a política e a situação de Portugal. Para meu espanto, o tema lançado, meio a sério, meio a brincar, identificou uma clivagem real e preocupante que eu não adivinharia, até porque, felizmente, os meus amigos são pessoas atentas e bem informadas, que se fazem valer de uma bagagem profissional vasta e díspar, e que não têm apenas Portugal como local de trabalho.
Apesar deste reconhecimento de amigo, sou incapaz de concordar com observações sobre as profundas mudanças sociais e económicas que Portugal conheceu na vigência da democracia iniciada em 1974. A redefinição do papel desempenhado pelo Estado foi basilar na construção da nossa versão moderna do Estado-Providência, conquista esta que permitiu o investimento prioritário na proteção social, saúde e educação. As despesas sociais representavam 7% do PIB, no entanto, na segunda metade do século XXI, este valor aumentou para 30%. Em 1999, apenas 19% da população portuguesa com mais de 25 anos tinha frequentado o ensino secundário. A mortalidade infantil, por mil nascimentos, diminuiu de 38 mortes, em 1974, para 3, em 2018. Em 1974, o PIB português era cerca de 123 milhões de dólares, em 2019, era 2,5 vezes maior, com um valor de 326 milhões de dólares, tornando Portugal na 50ª maior economia mundial. O desempenho económico, apesar de frágil, volátil e do tipo “stop-go”, sofreu uma grande transformação onde a industrialização deu lugar aos setor dos serviços, processo convergente com as economias desenvolvidas.
A democracia fez, portanto, (muito) bem a Portugal, mas a descrença na política é avassaladora, o político é considerado, por defeito, um corrupto. Aceito, em parte, o argumento de que muitos responsáveis políticos não têm qualquer tipo de experiência profissional, nunca enviaram um CV, fazem uma vida confortável com funções de nomeação sem conhecer a vida real. Pois bem, se existe mediocridade na classe política é porque assim NÓS a consentimos.
Em Portugal, apenas cerca de 5% das pessoas trabalham para um partido político, 20% contactam com o político, 23% colaboraram numa petição, apenas cerca de 10% fazem protestos e boicotes ao consumo, com propósitos políticos, para não falar da abstenção eleitoral, que atinge números vergonhosos para uma democracia. A exigência está na participação, se queremos melhores políticos, então envolvamo-nos no processo democrático, porque como diz o meu amigo Beira: a “classe política é o reflexo da sociedade que temos!”.





