Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2022
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Salazar: 60 anos do início da guerra em Angola (VI)

Entre 15 de novembro de 1884 e 15 de fevereiro do ano de 1885, decorreu a conferência de Berlim por iniciativa da França e da Grã Bretanha, cabendo a organização ao chanceler Bismark; no evento estiveram catorze países, entre eles Portugal.

-PUB-

Esta conferência teve a ver com o interesse dos países europeus em África, a procura de produtos tropicais, a investigação cientifica e a necessidade crescente de matérias primas devido à industrialização e à emergência de novos mercados.

Ali ficou consagrado normativamente o principio de Uti possidetis jure, em contraposição com os direitos históricos que Portugal sempre defendeu até ao final da guerra.
Consabidamente, Portugal ocupava a linha costeira de Angola sendo débil a ocupação do hinterland, ou seja, das zonas mais interiores.

Compreende-se que assim fosse, devido à escassez de população portuguesa para a ocupação de áreas territoriais que, no conjunto das colónias, eram de quase dois milhões de Kms 2.

No termo da II Grande Guerra, os movimentos de libertação estimulados pelo contexto da guerra fria ganharam força e trataram de defender a independência dos seus territórios.
Após o 15 de março, início da guerra em Angola, o Estado Novo parece ter ficado paralisado e sem saber como reagir até que, a 13 de abril, dia em que falhou a tentativa de golpe de Estado da iniciativa do ministro da defesa Botelho Moniz, Salazar assumiu esta pasta, demitiu os golpistas e o ministro do Ultramar e, de forma reativa, enviou os primeiros militares para Angola de avião, um contingente bastante pequeno.

A 21 de abril partiu de Lisboa, numa manhã nimbada como pude descrever no meu romance, Neste cais, para sempre, o Niassa com 1800 homens a bordo.

Em Luanda recebeu-os o recém-empossado ministro do Ultramar, Adriano Moreira, jurista emérito, especialista em Direito Internacional e o povo em delírio, transbordando de portugalidade a marginal da cidade.

Só os povos antigos conseguem momentos de excitação e esperança como aquele, quando a política e o direito internacional não eram favoráveis.

Com mocas, catanas e pedras, os ativistas da UPA iniciaram a guerra chacinando a esmo negros e fazendeiros brancos protagonizando um dos momentos mais violentos da nossa história secular.

Aproveitando os apoios do Congo, cuja independência da Bélgica tinha ocorrido a 30 de junho do ano anterior, e uma linha de fronteira propícia à guerrilha, os ativistas da UPA deram início ao conflito sem os meios adequados, aproveitando a fragilidade e isolamento dos fazendeiros do café e a débil presença portuguesa no território interior.

E assim começou a guerra sem meios de nenhum dos lados do conflito; do lado de Angola sempre na expectativa de apoios internacionais que acabaram por chegar em força em armamento e no plano político e do lado de Portugal sem treino militar e armamento já que nada mais seria de esperar ante o isolamento do país.

O que parecia uma guerra sem importância da iniciativa de tribos sem formação militar, armas e formação ideológica, converteu-se num conflito sério, sofrido, duro, longo, com milhares de heróis e mártires de ambos os lados.

Não vale a pena desafiar os ventos da História.

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.