Quarta-feira, 22 de Julho de 2026
Ernesto Areias
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Abrilada, tentativa de golpe palaciano

O início da guerra em Angola a 15 de março de 1961 e a violência dos confrontos, deixou o regime paralisado e indeciso.

O início da guerra em Angola a 15 de março de 1961 e a violência dos confrontos, deixou o regime paralisado e indeciso.

Discutia-se, então, a mudança na política colonial no Conselho Superior Militar em reuniões do conhecimento de Salazar, através do gen. Botelho Moniz, então ministro da defesa, e de outras altas patentes.

Um dos ideólogos da mudança foi o então cor. Costa Gomes, que obteve, do embaixador dos USA, C. Burke Elbrick, a promessa de apoio para que a transição do regime colonial se fizesse através da autodeterminação durante um período mínimo de doze anos. Apontava-se como solução a criação de um estado federal, ideia cara ao prof. Marcelo Caetano, que viria a passar pela consulta dos povos das colónias sobre o seu futuro.

Esta proposta dos militares teve firme oposição de Salazar, que mantinha uma atitude de desconfiança em relação aos USA. Já assim tinha sido no plano Marshall e desconfiança de John Kennedy, grande defensor da democracia. Esta posição arrastou Portugal para uma guerra inútil de treze anos, porque as soluções pacíficas foram rejeitadas.

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Uma das formas de atuação de Salazar era ouvir toda a gente, de modo a avaliar o alinhamento com o regime, e decidir, mais tarde, à revelia de todas as opiniões e perseguir quem entendia.

As eleições de 1958, a Índia Portuguesa, o 4 de Fevereiro, o assalto ao Santa Maria e o início da guerra, em vez de servirem de alertas, foram causa do extremar de posições do regime, que mantinha ao leme um homem fora do tempo, arcaico, com o pensamento cristalizado e abocanhado pelos interesses dos grandes grupos nas colónias.

A queda do império colonial da França, que agonizava na guerra da Argélia, a independência do Congo e outras em África, não foram o bastante para que Salazar aceitasse que remava contra a maré.

Foi esta recusa do regime que esteve na origem da Abrilada, tentativa de golpe palaciano condenado, desde o início ao fracasso.

No livro “Costa Gomes, o último marechal”, do qual consta uma extensa entrevista de Maria Manuela Cruzeiro, o entrevistado respondeu a numerosas perguntas dando a sua versão da Abrilada.

Segundo o ideólogo principal do golpe, o episódio não passou de uma tentativa falhada, desligada do povo e sem a intervenção da oposição ao regime.

Ora, nenhuma revolução ou transformação política se impõem desligadas dos destinatários, que são os cidadãos, e sem um programa de ação abrangente, quanto às grandes questões nacionais, que o conduza.

Creio que nas reuniões do Conselho Superior Militar apenas se discutiu a política colonial sem um plano abrangente das alterações que viriam a ser necessárias.

Os pretensos golpistas chegaram a preparar a ida de Salazar para a Suíça sem ideias para o desenvolvimento do país. A reunião decorreu a 13 de abril pelas 15:00 sendo demitidos os intervenientes dos seus cargos meia hora depois, por denúncia de Kaúlza de Arriaga.

Com a expressão “rápido e em força para Angola”, Salazar anulou as ações de um golpe romântico de militares hesitantes, de uma aventura que mais parecia um amuo.
Bem poderiam, os militares, projetar o olhar no futuro, enquanto Salazar continuava a rejeitar as deliberações da conferência de Berlim em 1885.

A obstinação dos tiranos paga-se com sangue dos inocentes.

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