Quarta-feira, 3 de Junho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

Uma passagem para 2026 de choques, lutas e contrastes

Choques entre interesses divergentes de Estados ambiciosos que espezinham, se puderem, os vizinhos; lutas fratricidas no interior de países onde os interesses de grupos se sobrepõem ao interesse coletivo; enfim, contrastes horríveis no interior de países onde os níveis de vida contrastam escandalosamente.

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Por isso, em serviços noticiosos, se ouviu por estes dias: “Enquanto é Natal… na Ucrânia continuam os bombardeamentos e a tentativa de negociar a paz parece um processo kafkiano; enquanto é Natal… os países mediadores da guerra na Faixa de Gaza repetem reuniões, procurando um acordo para a 2ª fase de cessar-fogo”; enquanto é Natal … poucos se importam com a subida do número dos sem-abrigo, mesmo em Portugal.

É esta a realidade chocante que nos entra casa adentro todos os dias via comunicação social. Arrepiante, decerto, para os que mantêm ainda alguma sensibilidade; indiferente para muitos que deixaram de se preocupar com as guerras, que lhe parecem sempre distantes, com os desprotegidos, sejam migrantes, ou refugiados, sejam vizinhos, sabe-se lá, tantas vezes, com sucesso nas suas vidas até determinado momento. Há quem lembre, mesmo, ou até pelo conflito que se arrasta em terras da Palestina, que o Jesus, pequenino e frágil, que os cristãos celebram nesta época, teve de se refugiar em país vizinho, porque o ódio e a inveja de quem temia hipotéticas disputas de poder a isso obrigaram. Portugal tem hoje, entre os seus habitantes, refugiados das perseguições de muitas guerras – da Síria e da Ucrânia, por exemplo, mas também imigrantes que chegaram de países tão distantes, hoje, de Lisboa, como o eram no século XVI para os muitos portugueses que tentaram por lá a sua sorte, deixando a “segurança” de Lisboa e abalançando-se em perigosa viagem à Índia, à procura de “ouro, prata e especiaria”, como nos refere Camões.

Portugal, um país que se formou e forjou com movimentos migratórios, tendo uma História de dispersão pelos quatro cantos do Mundo, recolhendo formação para a sua estrutura física e mental, enfim, construindo a sua cultura, nessas realidades migratórias, nesses contactos distantes, não dá para compreender – pessoalmente, não consigo aceitar – que o discurso que transvaza ódio e agressão aos outros seja tão facilmente aceite neste tempo que vivemos. Não se atende aos apelos que, felizmente, ainda vão chegando, como este do Patriarca de Lisboa: «A chave para a paz é reconhecer o outro, reconhecer o direito de existir», nas várias circunstâncias que se referem no início. Que em 2026 seja assim.

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