Quarta-feira, 3 de Junho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

Vamos a votos, pois

Quando, porventura, em subtil premeditação, o Governo avançou para um pedido de confiança, insinuando primeiro e apresentando depois uma Moção de Confiança na Assembleia da República, muitos comentadores, quais detentores de toda a sabedoria do mundo, se apressaram a declarar que “ninguém, em Portugal, queria eleições”.

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Caso para questionar: onde é que eu já ouvi isto?

Efetivamente, em democracia, essa é uma expressão que não tem cabimento. Desde logo porque generaliza um hipotético sentimento; depois, porque uma de entre as muitas vantagens da democracia é que o detentor do poder é, precisamente, o povo – “A soberania, una e indivisível, reside no povo”, pode ler-se no artigo 3º da CRP. O exercício dessa soberania não se restringe ao voto, é um facto. Mas sempre que necessário, ouve-se quem detém o poder democrático.

Portanto, tudo normal. Aliás, quando se argumenta que o contexto internacional não aconselha a momentos de auscultação dos cidadãos, está-se a incorrer noutra afirmação falaciosa. É em momentos de encruzilhada que mais urge ouvir os cidadãos para melhor enfrentar os problemas e optar por um ou outro caminho. O que será fundamental é não nos atermos em demasia aos motivos que provocaram esta dissolução do Parlamento, nem o Governo passar o tempo em atividades de campanha.

Antes, avançarmos para uma análise e debate dos problemas que surgem, quer pela evolução natural das sociedades – saúde e habitação são dois deles -, quer pelas surpresas que os detentores do poder em alguns países provocam pela incessante procura do poder hegemónico sobre outros povos e territórios. É a própria Europa que se confronta com esses problemas e necessita, hoje, como em outros momentos de grande indefinição, de debater os caminhos a seguir e as opções a tomar. Portanto, que caminhos, que opções devemos fazer nós, portugueses, neste mundo conturbado.

Li há dias num escrito de Sena Santos: «a Europa anda como nunca, neste século, à procura da Europa». Aí está um outro grande desafio, um grande tema para o debate – qual o papel de Portugal na nova geoestratégia mundial que os detentores do poder em determinados países querem impor? E se a União Europeia encontrar um caminho para aprofundar a União, como parece estar a perseguir, qual o nosso papel, enquanto seu Estado-membro? Ora, uma Europa que pretende unir-se mais, com as suas democracias e a sua solidariedade, é uma causa que merece a nossa atenção, o nosso debate e a nossa escolha. Em síntese, há boas razões para irmos a votos.

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