Quarta-feira, 3 de Junho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

A Alma também morre

É o último romance de Artur Vaz e tive o ensejo de o apresentar, ou falar acerca dele, em Santa Marta de Penaguião e nos claustros do edifício do Governo Civil, em Vila Real, no âmbito da iniciativa “Entre Quem Lê”.

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Em mais esta obra de ficção, Artur Vaz proporciona-nos um mergulho no Mundo Rural, mais em concreto, no Mundo Rural do Nordeste Transmontano raiano. É a expressão da sua ligação às raízes, ao sítio, ao terrúnculo onde nasceu e, assim, à região e ao país.

MILHANO, aldeia imaginária. Ontem, cheia de vida; hoje, desertificada física e demograficamente. A ação passa-se no ciclo de um dia, e o autor apresenta o personagem Augusto a refletir sobre a sua vida que já vai nos noventa! “Augusto decidiu acomodar-se pela sala, para (…) prosseguir naquela tarefa que melhor ainda o reconfortava: desfiar, uma a uma, as muitas e diversas contas dos seus rosários de experiências e lembranças … sem nexo e outro propósito que deliciar-se com a serena felicidade urdida, qual habilidoso tecelão, ao longo dos muitos dias de vida e trabalho. Com alegre e satisfeito pundonor também”.

Naquele dia, em junho de 2011, depressa Augusto se apercebeu de como a terra estava “despida de gente” e que “tudo estava alterado e sem rumo, percorrendo, inexorável, o caminho de uma morte certa e tão definitiva”. É que, considera ele, “ninguém se tinha preocupado em, partindo dos novos saberes e do amplo acervo de máquinas e técnicas disponíveis, assegurar outras formas de perseguir, com acerto, uma nova agricultura”. Desolação! Tudo morre!

Mantém, todavia, uma réstia de esperança, Augusto, relativamente a Milhano, nós outros, os muitos que nascemos na aldeia, em relação à nossa, em a vermos revitalizar-se. Ele di-lo assim: “Quanto à outra parte de tudo isto também acabar (…) alguma da nossa gente perdida por esse mundo de Deus será obrigada a um regresso e a tratar disto como convém (…) essa maldição de se terem amontoado todos pelas cidades e arredores, em empregos de fazer de conta e nada produzir, é para dar mau resultado. Só na terra e no seu cultivo mergulham, com proveito e vigor, as raízes de uma riqueza verdadeira”.

Pessimista? De modo nenhum. Antes, alguém que constata uma realidade e que procura explicá-la e com um pensamento no futuro, aliás, confirmado no interessante diálogo com o sobrinho Alcino, momentos antes da chegada de Amélia, que o levaria de regresso a Bragança. Dizia-lhe, como que em recomendação final: “E nunca percas a alegria; sobretudo não te descuides em conquistá-la, qual colheita delicada, em cada hora que passa, pois se o não fizeres, a tua alma vai morrendo, sem te dares conta”. O que não deve acontecer.

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