Ao regressarmos à nossa terra buscámos a harmonia e a variedade original. Com saudade enternecida e num perpétuo ato de redescoberta procurámos ainda, e sempre, o tal ovo quente que deixámos algures na “Bila”.
Sabemos, mas fingimos não saber, que a terra que se abandona nunca será a mesma à que se regressa. Para nós, ela continua a ser onde nunca se chega, e de onde nunca se parte em definitivo. É a lei do eterno retorno: tudo volta ao princípio, tudo volta ao seu primordial.
Por isso, a primeira coisa que fazemos quando à terra natal retornamos é procurar os lugares da nossa meninice.
Com ternura transbordante acionamos as nossas recordações desse tempo distante em que habitam as primeiras rajadas da vida, as primeiras emoções e sensações.
É uma caça a memórias como se estivéssemos a ver um filme ao recordarmos, com fugidias imagens que se decompõem e se refazem. Também os desvelos do pai, a mãe e da avozinha.
Mais: estamos a ver o cabrito pendurado de cabeça para baixo na trave da cozinha, todo aberto. Também a missa dominical, pelas 8h30, na igreja do Calvário, o cheiro a incenso e a cera queimada, o verão e os banhos magníficos nas águas do rio Corgo, na levada do padre João.
Assim sabe bem olhar para trás e nesse passar do tempo recuperar alguma paz interior que os anos foram transtornando. Sair da “Bila” é a pior maneira de ficar nela.
Quando as saudades apertam tiramos férias, fugindo à rotina e às intolerâncias da confusão urbana de Lisboa para celebrar a vida, a família e a amizade, com alegria e boa disposição.
Finalmente, o danado do tempo vai passando. Estamos mais vividos e menos jovens, mas continuamos a ver a Bila com os olhos da memória e da distância.
Mas no fundo, no fundo, estivemos em Vila Real, pensando na nossa terra todos os dias. Até sempre.




