Quinta-feira, 20 de Janeiro de 2022
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A Lei de Gresham passou o Túnel do Marão?

A lei de Gresham explica que perdemos a boa moeda e ficamos geralmente com a má.

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Perdemos bons trabalhadores, que migram para outro lado, e ficamos com os menos bons. Perdemos bons vereadores, que vão para a vida deles, e ficamos com os mais subservientes. Perdemos bons Técnicos Superiores, que aproveitando regimes de mobilidade vão para outros lugares da Administração Central e Local, e ficamos com os biscateiros. Perdemos bons investigadores, que vão trabalhar para outras universidades, e ficamos com os possíveis. Perdemos bons treinadores, que vão cumprir e bem noutros campeonatos, e contentamo-nos com os mais desatualizados. No fundo, a prazo, perdemos em troca do contentamento medíocre com o presente.

A lei de Gresham é racional? É. Quando? Em duas situações principais.

Na primeira, quando esperamos que a troca, aparentemente desvantajosa agora, seja vantajosa no futuro. Guardar as notas de 50 e pagar com as de 5 dá-nos uma sensação de riqueza guardada (mas não exibida). Mandar embora os melhores colaboradores de uma empresa, de um executivo municipal ou de uma escola pode ajudar no desenvolvimento do território se eles, ganhando mais pelo bom trabalho que fazem fora, mandarem receitas, bem-estar e progresso para a terra pelo Natal. Perder o Cristiano Ronaldo para o Manchester United há 20 anos foi bom para a projeção do mesmo e para a projeção do futebol português. Mandar um bom investigador para um laboratório na Suíça onde poderá descobrir a cura de uma febre que afeta as cabras do local de origem ajudará na pecuária decerto.

Na segunda, quando as economias são protegidas – por conceitos monetários, administrativos, estéticos ou como se dizia em silvicultura, quando são ‘viveiros’. Quando visitamos um viveiro, vemos lá pés de laranjeira e não vemos laranjeiras, vemos pés de pereiras e não vemos pereiras, vemos pés de roseiras e não vemos roseiras, vemos bolbos e não vemos lírios ou tulipas. Quando visitamos as economias-viveiros, vemos ‘funcionário sensíveis’ que muito se melindram mesmo que quando pouco criticados, vemos ‘vereadores melindrosos’ que pouco confiam e muito perseguem, vemos ‘pés de projetos’, mas não vemos obra feita. No fundo, vemos um ambiente de estufa, que cheira muito a estufado, mas na hora do apresigo poucos comem à mesa e muitos menos medram na natureza.

Mas como, na dita natureza, nada se perde, tudo se transforma, sobra o Natal para os de fora visitarem os estufados e trocarem saudade pela distância. Porque, mesmo nos viveiros, as flores conseguem despontar.

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