Domingo, 1 de Agosto de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A língua é pátria que nos faz sonhar

A língua é a voz do mundo, do doente e da tísica, sem chama, sem graça, sem nada.

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As línguas não são instrumentos neutros, nem só códigos de transmissão de informações, sobre objetos, conceitos e sentimentos… a língua materna é a que mais influencia, modela e reflete a nossa conceção do mundo e da vida.

A língua é o sol que se põe que dá lugar à noite que se faz negra num céu de chumbo, onde andam à deriva milhões de vocábulos na procura de novas línguas que tragam novas palavras e novas esperanças.

A língua é dos falantes que não têm morada certa. Ela é pátria de todos e tem alma que por vezes chora, por vezes ria. Ela é dor, é parto, raiva, euforia. A língua é paixão, é silêncio quando em música de morto em caixão. A língua é dos negócios e dos afetos. Das pautas, das galdérias, do mundo dos alfabetos. É dos mares, dos rios da China, do menino e da menina, é grito lancinante de dor, espasmo de gente que a procura para comunicar. A língua é dos amantes sem dinheiro. Dos tesos, marialvas. Da Gaga, mulher do cauteleiro.
A língua é pertença dos povos, é cultura, consciência das liberdades e das nações. Nela se acolitam as mulheres na galeria dos homens poderosos dos milhões.

A língua está em cada lado… na terra e no mar. É gazela… é homem escuro colado a moça a procriar. A língua é mulher que melhor sabe amar. A língua é a arma da corrupção subtil e matreira. É a voz sineira do dinheiro, dos notáveis.

A língua é também Jesus Cristo mortificado na cruz, pregador em sermão aos peixes… é procissão com lindo e pesado andor, bandas filarmónicas, bombos a ribombar, gente plasmada a ver a procissão, peregrinos que rezam ajoelhados a cantar.

É rota de tormentas, história de vergonhas, mas é perdão sem rancor, desculpa de mau pagador. A língua tem discursos inusitados em dialética tenebrosa, ameaças, rudes e austeras disparando para os povos, mundo de todas as raças.

A língua também é sangue de cordão umbilical, código universal, acordo das uniões, celebração litúrgica, mistério exultante selado nos corações.

A língua é padre que na exaltação do sermão põe o povo devoto a chorar.

A língua é gramática divertida, aliança que por vezes nos convence que a aprendizagem da sintaxe nos alegra como brincadeira de criança. A língua são as pessoas, os animais, as paisagens, as viagens, a nossa maior herança… são as crianças no mundo da descoberta do amanhã… crianças à procura de uma cidade povoada da ternura do afeto das palavras. A língua é pátria que nos faz sonhar e deve ser usada com espírito de quem se serve de um bem… é um serviço público de total importância… A língua é a última esperança do mundo na força de comunicar.

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