Sábado, 4 de Dezembro de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

A magia também tem fim

A mudança da aldeia para a cidade enche-nos o imaginário com coisas novas que passam a estar na nossa disponibilidade.

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Lembro-me, quando ainda menino, vim estudar para Chaves, que das coisas mais impressionantes foram o cinema que se exibia no Cineteatro numa sala assombrosa para a época, com ecrã de fazer inveja e o circo que, com frequência, a partir do outono nos visitava, isto para além do futebol e das peças de teatro do liceu a 1 de dezembro e a da escola Comercial e Industrial no início da primavera. Afinal, tanto e tão pouco.

Lembro-me do circo Americano em 1968 se instalar na Lapa com um aparato enorme e de, nessa altura, ter falecido, num acidente de viação em Curalha, uma das suas atrizes, ainda jovem, causando consternação. Lembro-me do circo Mérito, do Mexicano, do Império e do Império Torralvo, este bastante pobre, entre outros.

Com maiores ou menores recursos, mais ou menos artistas, os vários circos tinham em comum a magia dos acrobatas, dos mágicos, dos palhaços e dos que, exibindo habilidades, desfilavam no palco.

Vem isto a propósito da insolvência do Circo du Soleil, causada por dívidas superiores a oitocentos milhões de euros, que fechou as suas portas, deixando os credores sem o seu dinheiro e mais de três mil artistas no desemprego. E, a nós, que o víamos com saudades de um espetáculo que excedia sempre as melhores expectativas.

Cada vez que uma empresa que se dedica à cultura e à arte encerra portas, o mundo fica mais pobre. Afinal, não vivemos apenas das fábricas e das empresas que proporcionam empregos, mas também deste encantamento. Vivemos dos livros, do cinema, do teatro, das bibliotecas com gente em silêncio a desfrutar de uma boa leitura, das tertúlias de café e, sobretudo do aconchego dos grupos de amigos, onde nos sentimos bem.

Este paradigma de vivência da cultura em grupo parece ter-se diluído com o recurso permanente às informações que este mundo em rede nos proporciona e que, raramente conseguimos acompanhar.

O grande drama é que o acesso permanente à informação nos deixa sozinhos, condiciona o nosso mundo e fragiliza a profundidade do pensamento.

Hoje, perdemo-nos na efemeridade das coisas que acabam por não chegar a serem importantes.

Essa notícia já tem vários dias, logo não pode ser importante, logo estás desatualizado, não percebes nada disto.

A velocidade a que os acontecimentos se desenrolam não nos permite refletir com seriedade.

O mundo de hoje faz-me lembrar aqueles professores tagarelas que despejavam matéria sem darem conta que tinham uma turma de adolescentes à frente. 

No fim dos 50 minutos, aliviavam a consciência, convencidos de que cumpriram o dever. Mas não cumpriram porque ninguém entendeu nada da matéria.

Quando o circo du Soleil atuava ficava a sensação de que o turbilhão do mundo parava e de que voltávamos à infância.

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