Quarta-feira, 1 de Julho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

“A paz esteja nesta casa”

Uma das tradições que se vai mantendo é a visita pascal, o compasso, como também é designado em certas zonas.

A família é saudada com estas palavras. É a grande mensagem deste período do calendário cristão. E se associarmos ao momento que vivemos, certas declarações de responsáveis mundiais, bombásticas, pelo efeito que provocam, induzem-nos a refletir sobre a mensagem de Jesus de Nazaré no registo que Lucas nos deixa em 10:5, no título. Mas é importante que ali, na casa, haja quem ame a paz, quem esteja predisposto a recebê-la e a aderir à mensagem.

A comunicação social nacional e internacional traz-nos todos os dias notícias que contrariam esta mensagem. Ucrânia, Gaza, Sudão são realidades que não podem ser ignoradas. Apesar de tudo, aqui e ali, vislumbram-se alguns lampejos de luz. O grande arauto das causas da paz e da boa convivência entre os povos era o Papa Francisco, que, agora, nos deixou – «… que se faça tudo para evitar uma catástrofe humanitária e que se oiça “o grito de paz pedido pelos pobres e pelas crianças”, pois “a guerra apaga o futuro”.», dizia, referindo-se a Gaza. António Guterres, num segundo mandato tão difícil à frente da ONU, é outro. Não se inibe de afirmar que «a democracia, o Estado de Direito e o respeito pelos direitos humanos são os alicerces de sociedades resilientes, inclusivas e pacíficas».

Mas os detentores do poder político na generalidade das potências não escutam o primeiro e agem como se não existisse um espaço de debate e de concertação multilateral como é a ONU, criada após a II Guerra Mundial, exatamente, para prevenir as guerras e promover a paz. Haverá interesses maiores a comandar as suas opções? Certamente.

Por tudo isto nos apraz registar as palavras do Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima, quando estabelece uma comparação entre as palavras de Trump, nos nossos dias – América primeiro – e as de Hitler, nos anos trinta do século passado – a Alemanha acima de tudo. Falam como se não existissem outros povos, tão dignos quanto os “deles”. Por isso, urge que se levantem vozes que se façam ouvir, capazes de traçar outros caminhos. Serão os homens de boa vontade, construtores, hoje da Paz na Terra, porque o mundo em que as autocracias trabalham em conjunto para se manter no poder, para promover o seu sistema de governo e para subverter a democracia não constroem as pontes indispensáveis à paz de que fala Francisco.

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