Sábado, 16 de Outubro de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

A Peste

A pandemia do Covid 19 concitou a curiosidade de revisitar A Peste de Camus.

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Na cidade portuária de Orão, a segunda da Argélia, apareceu em 1947 um rato morto. Pouco depois: dois, quatro, quarenta… dias mais tarde, em progressão exponencial, milhares de ratos pejavam a zona portuária e as ruas com cadáveres.

Mortos os hospedeiros, as pulgas mudaram de pouso para os humanos, causando-lhes septicemia hemorrágica que levou milhares a morrer. Era a peste bubónica também designada por peste negra que, ao longo de séculos, dizimou milhões de seres humanos a partir de 1340.

Orão tinha em 1947 cerca de 250 mil habitantes, sujeitos a quarentena. 

Camus, no romance, A Peste, descreveu as fragilidades da condição humana, a loucura, a rendição, a solidariedade e a resiliência.

O protagonista, o doutor Bernard Rieux foi incansável a socorrer os seus concidadãos. A obra valeu a Camus o Prémio Nobel.

Hoje coexistem com o Covid 19 outras pestes:

As pestes da incerteza e da mentira, da insegurança e da integridade física, da especulação e do sensacionalismo; concorrem a peste do capital, do grande capital, as pestes dos interesses imediatos de multinacionais, da concorrência entre blocos económicos em demanda do reajuste em consonância com o tempo líquido, efémero que vivemos, no dizer de Zigmunt Bauman.

O desespero, a incomodidade e incerteza da economia estão presentes, mas a verdadeira história está por contar.

Deverá merecer-nos esta emergência algumas reflexões sobre a importância vital do SNS, sobre a nossa capacidade de vivermos em família durante dias e dias fechados em casa, sobre a condição dos mais vulneráveis: pobres, idosos e os que vivem sós. 

Dentro de algum tempo serão avaliadas as consequências da crise económica, inevitável, que teremos de enfrentar.

Em A Peste de Camus os ratos morriam depois de picados pelas pulgas. Nesta peste, os ratos engordam à custa de milhões de seres humanos, levando uns à morte, outros ao desemprego e à insolvência, destruindo a economia dos países mais frágeis.

Esta peste, uma metáfora das guerras do futuro, não foi causada por nenhum de nós, mas pagaremos, sem remissão, as consequências.

Uma palavra final de apreço para os profissionais de saúde que zelam por todos e para o SNS que, contra a vontade dos que querem destruí-lo, teima em ser os melhores do mundo.

Os algoritmos da ganância não derrogam o direito à vida do decano dos portugueses.■

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