Hoje, a liderança local e distrital dos maiores partidos portugueses (do “arco do poder”) é disso exemplo: prospera o tipo de líder que se enraíza em tudo o que é debate público, opinião publicada e palco mediático. Cresce depressa, ocupa o centro, fala alto. Mas, tal como o eucalipto, deixa pouco espaço para outros pensamentos germinarem. O egocentrismo político não se limita à vaidade; transforma-se numa força de secagem democrática: esgota a reflexão coletiva, abafa a dissidência, repele a dúvida — essa forma sofisticada de inteligência. As agendas pessoais têm-se sobreposto, de forma notória, à agenda institucional dos partidos e aos critérios coletivos dos seus militantes.
Os dois maiores partidos portugueses continuam a fazer como a avestruz. Parece que o resultado das últimas eleições legislativas não provocou qualquer motivo de reflexão/preocupação, pelo menos para o PSD. O PS já sentiu “na pele”, ao ser relegado para 3ª força política no parlamento, e o PSD, a seguir este caminho, poderá ser o próximo a ser penalizado pela avalanche do partido Chega.
A nível distrital o partido não tem uma estratégia. Ainda na última semana, aquilo que se verificou na “eleição/nomeação” dos órgãos sociais da empresa pública “Águas do Norte” foi um sinal claro disso mesmo, associado à falta de ambição, porventura de influência política, negligência ou até desleixo político, dos dirigentes locais e distritais do PSD.
A Águas do Norte é uma empresa pública (participada pelo Estado e por municípios) e tem a sua sede em Vila Real.
Por uma questão (natural) de representatividade e proporcionalidade, o Conselho de Administração Executivo (CA) desta empresa, composto por 5 elementos, teve sempre um representante da região de Trás-os-Montes e Alto Douro (TMAD). No passado dia 24/06 foi “eleito/nomeado” o novo CA para o triénio 2025/2028. Com estranheza, constata-se que este órgão importante da empresa não tem, pela primeira vez, um representante da região de TMAD.
A pergunta que se coloca é a seguinte: não existe ninguém na nossa região, neste setor do Ambiente, em particular na área do abastecimento de água e tratamento de esgotos, que pudesse, fruto da sua atividade, conhecimento, know-how na matéria, integrar um órgão executivo desta natureza? Independentemente do partido, religião ou crença a que pertença?! É legitimo que fique a dúvida: por incompetência de alguns fica assim quebrado o princípio da representatividade que sempre existiu nesta empresa?
Da “eleição/nomeação” mencionada anteriormente resultou que os 5 membros executivos têm as suas proveniências da região do Porto e do Minho.
Os partidos chamados “do arco do poder” estão, talvez, a sofrer de um problema comum, que não se conseguem livrar: os seus líderes sofrem de um excesso de egoísmo, muito próximo do narcisismo. São líderes que não delegam, não escutam, não permitem sombra alheia. Prometem eficiência, mas entregam monocultura: uma única visão, uma só verdade, uma só direção. A democracia, que deveria ser floresta densa de ideias, torna-se assim num campo de eucaliptos.
Tal como a plantação intensiva compromete o equilíbrio dos ecossistemas, o pensamento único fragiliza o tecido político. E quando chega o incêndio — porque chega sempre — arde tudo, de uma vez só.
Chegará esse tempo. O tempo de replantar. De preferir a floresta à monocultura, o coletivo ao personalismo, a escuta à imposição.
Porque uma terra seca de ideias é tão perigosa quanto um mato seco no verão.





