Noutros tempos, o padre tinha de passar a imagem de ser quase perfeito, sempre saudável, forte e imperturbável, que cuida do seu povo. Se tinha perturbações ou doenças psicológicas ou psiquiátricas, se tinha sofrimentos ou dificuldades neste campo, tentava ao máximo escondê-las, porque estavam associadas a falta de fé, desleixo ou a desordem moral e espiritual. Um padre não podia mostrar fragilidade. Nada de mais errado. Os padres são revestidos da mesma natureza dos outros homens, são seres frágeis, podem também ser atingidos pela ansiedade, depressão, burnout, entre outras patologias. Os padres cuidam dos outros, mas também precisam de ser cuidados. Como escreve a teóloga espanhola Cristina Inogés Sanz no jornal Sete Margens, o clero não é “a versão quotidiana e próxima do super-homem. A batina ou o sacerdócio não têm nem conferem poderes sobre-humanos. Nem a imposição das mãos na ordenação faz de um homem um herói, nem a perigosa “paternidade espiritual” o torna superior e a salvo dos caprichos humanos”.
Em 2020, a Igreja francesa publicou um estudo, que revelou dados preocupantes: um bom número de padres franceses sofria ou já tinha sofrido com a depressão, 2% dos padres inquiridos estava em burnout. A maioria dos padres inquiridos manifestaram que enfrentavam excesso de trabalho. Durante o estudo, dois padres suicidaram-se. Ainda há algumas dúvidas sobre as causas, mas recentemente um jovem sacerdote também se suicidou em Itália, e no Brasil, por exemplo, já ocorreram vários suicídios de sacerdotes. Os padres estão a passar por dificuldades mentais e emocionais, e poucos parecem estar atentos.
Hoje, os padres têm várias paróquias e estão presentes em vários serviços e atividades. Verifico que muitos paroquianos e comunidades pouco ou nada se preocupam com o excesso de trabalho e a saúde mental e emocional dos seus párocos. O padre tornou-se o prestador de serviços ou o funcionário religioso para o cumprimento dos sacrossantos usos e costumes das paróquias e dos sacramentos e festas que interessam aos paroquianos. É-lhe exigida uma prontidão e uma disponibilidade quase sem limites. Não será muito difícil, com o tempo, chegar a situações limite e a grandes níveis de desgaste físico, mental e psicológico.
É tempo de as comunidades darem atenção a este assunto. Podem começar por ter mais compreensão, atenção, sã vigilância e fraternidade com os párocos.




