Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2023
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Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

A seca ainda não chegou às tascas

Num ano longínquo, a seca em Mateus incendiou mais a miséria da aldeia.

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As pessoas com santinhos em papel e rosário na mão pediam ajuda a todos os santos e anjos, e com lágrimas nos olhos, as rezas eram preces carregadas de silêncios. Houve até uma procissão a pedir chuva abundante para matar a sede dos campos, dos rios e das fontes e até dos bêbados para lhes refrescarem as ideias. Nunca naquela procissão implorativa, se rezou com tanto fervor. O padre Faceira à frente levantava bem alto a imagem de S. Sebastião flagelado e meia dúzia de músicos tocavam chorando.

Havia frio e as casas eram de palheiros e xisto. As mulheres vestiam de preto porque os homens matavam a secura na taberna e também havia outras fomes na descaração da ti-Mercedes que na taberna piscava o olho a qualquer homem. Os mendigos, nesse ano de seca, procuravam a frescura do fontanário e quando alguém ali passava, os olhos desses peregrinos de Deus cintilavam de alegria, explodiam de contentamento. Gulosos e necessitados dos odores femininos, não resistiam e olhavam para as pernas das mulheres que lavavam a roupa nos tanques, trauteando cantigas brejeiras. Uma toada infundia-se pelo largo: “ai larilolela, de manhã a cotovia, larilolela, todas cantam, só eu choro…” outra lhe responde: “vai-te sol, vai-te sol, lá pra trás do barracão, és alegria prá gente e tristeza pró patrão.”

E uma viúva errante, quase defunta, curvada quase até aos joelhos, mergulhava nostálgica, comandada pela saudade da juventude e no ecoar de um distante passado, falava sozinha com o pai do seu único filho que morrera de várias maleitas provocadas pela esganação da miséria.

A mulher recordava a proveniência desse filho de um pai soldado que à saída do quartel a esperou numa esquina em noite de luar e a convenceu a experimentar as loucas volúpias do amor. A noite estava gelada e a luz luarenta do céu era inspiradora e poética.

Desde essa noite, a mulher deambulava estranha e misteriosa nos seus estrangulados pensamentos. A seca emudeceu a terra e os céus carregaram-se de nuvens. Os trovões ribombaram em uníssono e a natureza mostrou de novo o milagre da vida. O povo reconciliou-se na razão inquebrantável da sua fé.

Nos dias seguintes, as tempestades chegaram flamejantes atreladas às cores do arco-íris e o povo apenas chorou de alegria. “Enganam-se os que vão para Deus voltando as costas à Natureza”, sentenciou uma senhora bem vestida com um véu preto a tapar-lhe o fino rosto.

A elegante senhora dirigia-se para a Casa de Urros e antes de entrar foi saudada pelo ti António, curvando-se perante tão distinta figura.

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