A necessidade de enfrentar a crise económica, inevitável, a queda dos negócios e do PIB dos países, o desemprego e o isolamento a que as populações têm sido obrigadas uniram a União Europeia que poderá sair fortalecida deste tempo aziago.
O mundo será outro depois desta Pandemia; as cidades não serão as mesmas, a distribuição da população com processos de desterritorialização que se antevêem abre as portas a novas oportunidades numa dialéctica de perdas e ganhos que vamos intuindo e prevendo. Acredito que seja a vez do Interior que se apresenta como espaço de futuro num mundo em que muitas das nossas acções foram desmaterializadas. É preciso, é urgente elasticidade nas nossas comunidades para acolher o diferente, é urgente acabar com os tiques autocráticos de muitos municípios do Inferior abrindo o nosso espaço e as nossas terras a pessoas que pensam e agem de forma diferente de nós.
.A democraticidade dos municípios vai ser fator de atractividade da população. Deixem respirar as populações, deixem que cada um vote onde bem entender e que haja alternância de poder e de ideias. Ninguém é dono das nossas terras, não há famílias de eleitos nem cidadãos intocáveis.
Os municípios que não tiraram os pés do paradigma do antigamente e que continuam a pensar que quem não é por nós é contra nós, perderão uma oportunidade que esta Pandemia nos serve de bandeja. Há, neste aspeto, exemplos bem tristes na nossa região do Alto Tâmega.
O ano de 2020, esse ficará por cumprir.
Quanto à cultura nunca se assistiu a um ano com o lançamento de tão poucos livros, no cinema e no teatro com tão poucos espectadores, o mesmo sucedendo nos vários desportos que vêm minguados o seu público que passou a ser virtual.
Até as festas de aldeia que garbosamente exibem os santos da devoção da comunidade em procissões que percorrem o dédalo das ruas de urbanismo ancestral, ficarão comprometidas e estes confinados, como se o barro tivesse aparelho respiratório.
Os emigrantes, que recebemos com entusiasmo, que alegram as nossas terras enquanto desfrutam do merecido descanso, certamente serão menos este ano e mais contidos nas suas manifestações.
Como é bom dizer-lhes que nos pertencem, que não deixaram de ser dos nossos, testemunho ainda mais profundo quando é passado através da língua, da identidade e da memória dos avós às gerações que não nasceram entre nós.
Também os bailaricos e arraiais, os lautos almoços de família e entre amigos ficam comprometidos com o medo invisível que vai assolando a todos, qual mina antipessoal escondida no meio de uma picada.
Todos estes condicionalismos levam-me a acreditar que o ano de 2020 ficará por cumprir. Espero que não fiquem pelo caminho as múltiplas oportunidades que nos oferece.





