Acontece muitas vezes aceitarmos só as citações que vêm de encontro ao que nos interessa. Deixamos, por isso, para trás, toda a sua carga semântica. Perdemos a objetividade, não cuidamos da honestidade intelectual, que devia ser uma preocupação constante quando emitimos os nossos juízos de valor.
Convicto que estou da justeza da sua afirmação, cuidei também de investigar o significado que o autor espanhol atribuiu à sua famosa frase e, num relance pelos meus conhecimentos, depressa encontrei dados que fazem jus à afirmação da escritora de alto nível que Lídia Jorge é para além de Conselheira de Estado. A começar pela família – uns, daqui; outros, dali, com filhos aqui e acolá. Naturalmente, os contextos socioeconómicos e culturais de cada um contribuíram para a sua personalidade. E identidade. Lembrei-me do colega, professor de Educação Visual, pintor nas horas vagas, natural de Moçambique, mas com raízes no então chamado Estado Português da Índia, que se enamorou pelo Marão.
Exprime muitas vezes a sua ligação à montanha que nos separa do Litoral Norte nas suas pinturas. É outro português, tal como o Sheik Munir, Imã da Mesquita Central de Lisboa, nascido na cidade da Beira, Moçambique, há dias insultado numa cerimónia de homenagem aos antigos combatentes da guerra colonial. Onde se encontrava, aliás, como é habitual e porque muitos dos antigos combatentes, que ao meu lado e de outros palmilharam as picadas de Angola e de Moçambique, ou atravessaram as bolanhas onde muitos guineenses cultivar(v)am o arroz. Não deixarei de lembrar, porque muito a propósito, a formação que tive de dar a quatro pelotões de milícias – dois, de religião muçulmana, para os quais, certo dia, tive que diligenciar, em poucos minutos, um outro acompanhamento para o almoço, porque a sua religião não lhes permitia comer o confecionado naquele dia que, por incúria, os responsáveis da cozinha apresentaram.
O selecionador de futebol Roberto Martinez, no Expresso do dia 14 pp, lembra que as suas filhas nasceram em Inglaterra, viveram sete anos na Bélgica e estão agora em Portugal, considerando “haver nisso uma riqueza”.
Pois há! Fruto da diversidade das circunstâncias de que nos fala o filósofo espanhol. Diversidade genética, cultural ou religiosa. Porque somos uma soma e podemos contribuir para somar, interagindo com e acrescentando ao que nos rodeia.





