Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Cem anos

A crise sanitária que vivemos, sem fim à vista e com incertezas a ensombrar o horizonte, sobretudo na economia e emprego, sem deixar de ter em devida conta a nova ordem mundial em construção, deu origem a que encontremos, com menos frequência, amigos, conhecidos e pessoas a quem estimamos

-PUB-

 Por estes dias, surpreendi um amigo na rua na hora canicular, com o calor a abafar a atmosfera sobretudo para quem caminhava devagar, açaimado por uma máscara azul.

Também de máscara, vi que não me conheceu mesmo depois de lhe ter falado.

– Então, como tem passado o meu amigo?

– Deixe-me com isto. No próximo ano faço 100 anos, as pernas começam a não ajudar porque estive bastante tempo sem lhe dar o uso devido, mas cá vou com a bengalita a apoiar-me. Vou devagar, pela sombra porque a máquina já não é o que era.

– Assim é que deve ser – respondi.

– Não deve ser nada, estou farto disto. O que ando aqui a fazer com quase 100 anos.

Não valia a pena argumentar porque a sabedoria de um velho lúcido que relativiza o tempo e a vida, dispensa os nossos aconchegos e a metáfora da eterna juventude.

Sem dúvida que 100 anos têm largos dias para o corpo, os ossos, as articulações e o cérebro.

Ao manifestar o seu desencanto lembrei o filósofo e critíco literário Georges Steiner, falecido com cerca de 95 anos, que, talvez na sua última entrevista, comentou que não valia a pena viver tantos anos, tendo-se afastado da vida pública quando o cansaço e o aspeto alquebrado o invadiram.

Veio-me à memória, um pensamento de Garcia Marques sobre o envelhecimento: o segredo de uma boa velhice nada mais é do que um pacto honrado com a solidão.

E o meu amigo sempre reativo foi aduzindo:

nasci logo a seguir à pneumónica e devo morrer quando esta crise estiver a passar. Uma vida entre duas pandemias. O que eu vivi, o que passei homem. 

– Sem dúvida, 100 anos são muitos dias que o senhor consegue comprimir através da memória, tão boa como tem.

– Vi cair a I República, depois veio o Salazar e a Guerra Civil espanhola, a seguir a II Grande Guerra. Se Portugal tivesse entrado lá, tinha ido dar com os costados. 

– Tempos difíceis. – comentei anodinamente.

– Não era bem assim, éramos novos, tínhamos força e esperança. Ninguém podia com a nossa vida, o trabalho não nos maçava. Havia respeito, sabe!

Havia respeito, refleti. São tantos os mais velhos que falam no respeito, uma metonímia do medo, da repressão, da fome envergonhada, da inconsciência do tempo, que temo que possam influenciar os que acreditam nas autocracias emergentes.

– Vale-me que ainda vejo para ler. O meu maior entretenimento, que me traz tempos felizes.

Sabedoria que me faz voltar ao Nobel Garcia Marques Livros: o melhor antídoto contra o gás metano do tédio e do vazio.

Sendo o cérebro o centro nevrálgico da existência, são os livros o melhor alimento.■

Mais Lidas | opinião

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.