Terça-feira, 21 de Abril de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Deportação e o triunfo da mediocridade

Acabo de ler as palavras do ex-primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, dizendo que a “cidade humanitária” proposta por Israel não passa de um campo de concentração.

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Para quem não sabe, a “cidade humanitária” é um projeto anunciado pelo ministro da Defesa de Israel para deslocar todos os palestinianos em Gaza para um campo construído sobre as ruínas de Rafah. Uma vez instalados, os palestinianos seriam sujeitos a uma “triagem de segurança” e, uma vez lá dentro, não poderiam sair, a não ser para fora da Palestina. As forças israelitas controlariam o perímetro do local, transfeririam inicialmente 600 000 palestinianos para a área e, logo que possível, toda a população de Gaza. “É um campo de concentração, lamento dizê-lo”, afirmou Olmert. “Se deportarem os palestinianos para esta ‘cidade humanitária’, podemos chamar-lhe limpeza étnica. Ainda não aconteceu, mas essa será a interpretação inevitável.” Olmert ainda teve tempo de acusar Israel de já ter cometido crimes de guerra em Gaza e na Cisjordânia e advertiu que a construção desse campo representaria uma escalada da violência.

Portugal não reconhece o estado da Palestina, mas este governo, muito timidamente, lá vai dizendo que é a favor da solução dos dois estados. Vai agora juntar-se à cúpula internacional de emergência em Bogotá para arranjar “medidas concretas contra as violações do direito internacional por parte de Israel”. Tenho pouca esperança, contudo. Estas respostas da comunidade internacional são pequenas réplicas à violência, ao crime e inenarrável desonestidade de Netanyahu e do seu governo, que acabou de nomear Trump para prémio nobel da paz. Desde o início desta última guerra de Gaza morreram mais de 55.000 palestinianos e 1.200 israelitas.

Será difícil ter algo a acrescentar ao que já terá sido dito sobre o uso de nomes de crianças, obtidas a partir de listas de matrículas escolares, nas redes sociais e no parlamento português. A penúria moral destes católicos ultramontanos é sempre admirável. Fazer a estratégia de terra queimada e a usura das crianças para objetivos políticos é miserável, e destapa o sadismo que já não querem esconder. Contudo, ouvir a sofrível articulação dos falsos argumentos de favorecimento de umas crianças em detrimento de outras nas matrículas escolares, revela como a mediocridade na linguagem é uma arma poderosa. Retira capacidade de oposição às suas teses ao transformar argumentos vulgares e néscios em fragmentos de película desmedidamente adaptáveis.

Estes argumentos vazios são telas em branco, oferecidas para constante reapropriação. São sempre sobre muito pouco – a culpa de tudo isto é da imigração e da corrupção. Mas focam a frustração e a indignação de uma sociedade que raramente se compreende a si própria, ajudando-a a redescobrir o que nela há de pior. Nostalgia, nacionalismo e conformidade de pechisbeque em ilimitados ciclos de acomodação e redescoberta mútua, na televisão, na internet e numa escola perto de si.

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