Quarta-feira, 28 de Julho de 2021
Paulo Reis Mourão
Economista e Professor Universitário na Universidade do Minho. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Dívidas, Suecas e Páscoa

Uma dívida é um conceito muito interessante em que pedimos ao Futuro recursos para o Presente

-PUB-

Recentemente participei num debate de economistas, com os Professores João César das Neves e Pedro Brinca. A dado momento, alguém falava da necessidade de endividamento, sendo Portugal um dos campeões de dívida pública no espaço Euro.

Como, então, expliquei ou recordei aos presentes, uma dívida é um conceito muito interessante em que pedimos ao Futuro recursos para o Presente (um pouco ao contrário da pegada ecológica, em que estamos a consumir hoje o necessário para um mundo sustentável amanhã). Quando pedimos emprestado, pedimos o trabalho futuro – nosso e dos outros – para nos ajudarem agora e aqui. Mas também quando pedimos emprestado, existe um compromisso implícito com o futuro – nosso e dos outros – em que restabeleceremos o equilíbrio: pagando ao futuro, pagando aos outros, pagando a nós, mais envelhecidos ou mais cansados. Portanto, uma dívida é uma coisa séria (que chegou a ser origem de escravidão até há 200 anos).

Mas quando pedimos emprestado, temos uma boa estratégia e três más estratégias. A boa é pedirmos emprestado para melhorarmos ao longo do futuro. Pedirmos emprestado para financiar um curso que nos vai permitir trabalhar melhor e com melhor compensação de mercado é bom. Pedirmos emprestado para comprar uma casa e vivermos com outro conforto no futuro é bom. Mas não devemos pedir emprestado perante o erro dos jogadores, perante o passado ameaçador ou perante o futuro incerto.

Explico. O erro dos jogadores da roleta de martingala leva-os a perseguir uma aposta (por exemplo, no vermelho) com apostas que crescem em progressão geométrica. Se na primeira apostam 1, na segunda 2, na terceira 4, e na sétima já estão a apostar 64, tendo gasto no mínimo o dobro menos um (2×64-1=127). Portanto, para ganharem 1, arriscam sete (ou mais…) jogadas, gastando 127. Esquemas de Martingala ou de Ponzi (empréstimos em pirâmide) abundam muito por aí, em mercados oficiosos mas que infelizmente contagiam os mercados conservadores. O peso do passado vê-se quando alguém tem dívidas acumuladas; raramente, mesmo com bons fiadores, os bancos financiam tal pessoa. Ou tal país. Portanto, países que não souberam pagar quando cresciam vão ficar com menor capacidade de endividamento quando precisarem mesmo, para financiar despesas urgentes, por exemplo, na Saúde. Em terceiro lugar, o futuro incerto. Quando enfrentamos taxas de juro negativas, em que pagamos para os bancos guardarem os nossos depósitos sem esperar juros positivos para nós, os depositantes tendem a tirar dinheiro dos bancos e a refugiarem-se em Obrigações do Tesouro ou noutros instrumentos de capitalização. Mas também os mais jovens fogem para criptomoedas. No fundo, os bancos emagrecem e os Estados perdem os seus parceiros tradicionais de sueca.

E para a sueca ganhar, já dizia quem me ensinou, é preciso Sorte, Atenção e Par. Portanto, sem o par certo, por mais atento que um jogador de sueca esteja e por melhor naipe nas mãos, será muito difícil fazer uma bandeirinha.

Nestes dias de Páscoa, saibamos ponderar os nossos créditos e débitos – para que o Passado não pese, o Presente não seja jogado e o Futuro seja menos incerto.

Mais Lidas | opinião

CPLP: Para que a queremos?

No rumo incerto

Residência alternada

A língua é pátria que nos faz sonhar

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.