Terça-feira, 21 de Abril de 2026
João Ferreira
João Ferreira
Investigador, Professor do Ensino Superior

Dos objetivos do povo e dos métodos da extrema-direita

É inevitável que ao sermos expostos a esta simultaneidade de eventos, de escalas variadas e de impacto material e simbólico substancial, nos percamos em esforços de compreensão dos tempos que vivemos.

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Tais sacrifícios são quase sempre infrutíferos e espúrios. A confusão agregada destes episódios, que se sucedem no número e na cadência das gotas da chuva, impede reflexões cuidadas e objetivas, embalados que ficamos no som das nossas emoções. Agressões de neonazis nas ruas de Portugal, saudações fascistas no 10 de Junho, bombas a cair de Teerão a Telavive, exército nas ruas da Califórnia para controlar manifestações, homicídio de um político, e tentativa de assassinato de um outro, ambos do partido Democrata do Minesota, por um homem disfarçado de polícia, enquanto morrem milhares de pessoas em Gaza e na Ucrânia, para nomear apenas alguns. Alguém disse, há praticamente uma década, que vivemos em tempos ficcionais. Mas este tipo de frases define mais quem as profere do que descrevem a realidade. São reflexos do choque e da confusão causada pelos precipícios da história humana.

A realidade é mais fria e desagradável, não nos permitindo os escapismos das metanarrativas. Acredito que há já algum tempo, provavelmente há mais de uma década, parte da população ocidental considera que os partidos políticos não querem, ou não conseguem, oferecer aquilo que o bom povo anseia. Quem apanhou esta boleia foram os oportunistas da extrema-direita populista, que viu muitos dos almejos dos cidadãos como coincidentes com os seus, e outros tantos como integráveis nos seus programas, se permitirem a oportunidade de chegar ao poder. O desagrado com a imigração e a defesa dos direitos das pessoas transgénero, o desdém pela globalização da economia em detrimento da economia local, o desagrado com as políticas de incentivo à descarbonização da economia e de combate ao aquecimento global e a manutenção da segurança nas ruas através de uma atuação da polícia mais repressiva para determinados elementos da sociedade, são exemplos do que é considerado como retrógrado, racista, ou até pior, pelos partidos tradicionais. Estes eleitores estavam órfãos de representação até aparecerem os populistas. E se algumas pessoas adoram as pinceladas de fascismo com que estes partidos ultramontanos adornam as suas lapelas, ou a sua combatividade e a capacidade de humilhar a esquerdalha “woke”, outras tantas ou mais não se importam com isso, porque apreciam sobretudo que estas organizações defendam os seus pontos de vista. Até podem não concordar com os métodos, mas partilham dos objetivos. Por isso estarão prontos, e cada vez em maior número, para lhes dar uma oportunidade, independentemente do seu odor a bafio.

Agora já só há duas linhas de ação possíveis. Uma inclui a apresentação intensa e reforçada de uma visão da sociedade que não precisa de ser retrógrada para ser convincentemente viável. A segunda, e mais dolorosa, é a de demostrar que embora os objetivos possam ser coincidentes, os métodos da extrema-direita são insuportáveis. E o que está a acontecer pelo mundo inteiro, cada vez mais dominado por ela, será sempre o melhor exemplo. Sim, este processo inclui injustiça, sofrimento e dor. Talvez com sorte, aqui em Portugal, possamos passar pelos pingos da chuva, enquanto o movimento MAGA e os seus sucedâneos se enterram na lama. Mas, porventura, tal hipótese será apenas uma miragem.

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