Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Ecos de uma visita a Luanda 50 anos depois

Em outubro passado, desloquei-me a Luanda integrado numa equipa de missão para cumprir objetivos previamente definidos, regressando à cidade que há 50 anos tinha deixado, no final da comissão obrigatória de serviço militar.

Cumpriu-se, assim, a velha “máxima” luandense ao vaticinar-se que quem alguma vez passar por Luanda, e beber água do Bengo, não deixa de lá voltar. Todavia, confesso que a desilusão foi enorme, tendo em conta as imagens que ainda permanecem no meu imaginário, desse tempo marcante do principio dos anos 70 do século passado.

Durante a minha curta estadia na 23, passei por alguns locais que me eram familiares, verificando o quanto a cidade se foi metamorfoseando ao longo dos anos, descaraterizando-se com a construção de vários arranha-céus, um pouco por todo o lado, sem qualquer relação arquitetónica com o edificado existente. O caso mais paradigmático está patente no antigo Eduar, onde o emblemático Mercado foi substituído pelo centro comercial, em construção, constituído por um edifício base do qual emergem duas torres laterais, totalmente dissonantes da envolvente.

A toponímia local sofreu uma alteração radical, tendo sido atribuídos aos arruamentos luandenses, os nomes de vários nacionalistas angolanos, como o de Comandante Valódia, à antiga Av. dos Combatentes, Av. Deolinda Rodrigues à Estrada de Catete e o de conhecidíssimas figuras do internacionalismo proletário, como Lenine, Che Guevara, Friedrich Engels, só para citar algumas.

Tive ocasião de revisitar a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, na Vila Alice que, na companhia do meu camarada e amigo Isidoro Mealha Pereira, visitávamos frequentemente, para participar na eucaristia dominical, tendo tido a grata satisfação de a reencontrar bem conservada e aberta ao culto, trocando palavras amistosas com alguns sacerdotes presentes, que me encheram de satisfação. Aproveitei também para fazer uma pequena incursão ao local onde se situava o mítico Centro de Instrução de Comandos, nas imediações do Bairro Cazenga, onde estive aquartelado. Constatei, porém, que o mesmo já não existia, visto que toda aquela área fora ocupada pelo crescimento desordenado do referido bairro suburbano. De notar que a explosão demográfica, desde a independência, tem sido exponencial, comportando Luanda e arredores 12,5 milhões de habitantes, com tendência para aumentar, quando em finais de 1973 esse número era aproximadamente de 475 mil pessoas.

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Não posso deixar de referir, também, com alguma angustia, o que me foi dado observar ao longo dos percursos efetuados: o deambular constante de grupos de pessoas, de vários escalões etários, comerciando todo o tipo de bugigangas e artigos diversos, desde garrafas de água, amendoins, bananas, parafusos, pregos, etc., e miúdos com as suas caixas de engraxar, um pouco por toda a cidade, assediando os transeuntes, nomeadamente, estrangeiros, como forma de angariação de meios para a sua subsistência.

Quase 50 anos passados, depois da independência daquele imenso e rico território, não há palavras para expressar o quanto me vai na alma, perante tão desoladora e inquietante situação.

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