Quarta-feira, 22 de Julho de 2026
Ernesto Areias
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Eleições e contradições

O fascínio pelo protesto, pela negação do sistema e a repressão determina o destino de muitos votos.

O aspeto mais saliente destas eleições presidenciais foi a emergência da candidatura de André Ventura que, de rompante, abocanhou uma parte com algum significado do   eleitorado chamando a si dezenas de milhares de votos de protesto dos que não se revêem no regime democrático, nos princípios da CRP, no sistema eleitoral e em múltiplas iniciativas desenvolvidas nas últimas décadas por sucessivos governos.

Não deixa de ser surpreendente que mereçam discussão a existência da escola pública, do SNS, dos apoios sociais aos mais desfavorecidos, aos doentes, aos portadores de deficiência, aos idosos.

Derrogaram a discussão e aperfeiçoamento do que vem dito, as bandeiras antissistema baseadas na repressão, no justicialismo, na negação da ciência, da arte e da cultura, na destruição da escola, das universidades e centros de ciência e conhecimento, na melhoria do nível de vida e na desagregação das relações diplomáticas com os outros países.

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Os deserdados da globalização, os que não entenderam as mudanças do mundo, da nova ordem, das novas tecnologias e competências serão hoje, em grande medida, os que defendem uma sociedade baseada em valores e ideias que há muito fizeram o seu tempo e se esgotaram.

A sociedade europeia mudou: mudou os hábitos, a escolaridade, o perfil sociológico, na multiculturalidade e acolhimento de povos de múltiplas proveniências.

São os que não entenderam a mudança de paradigma que hoje reclamam um espaço de confronto baseado na exclusão, na violência e na intolerância.

Vem isto também a propósito da comemoração do Dia Internacional do Holocausto a 27 de janeiro.

Num artigo de grande fulgor publicado no jornal Público dia 23.01.2021, Esther Mucznik recorda-nos a forma como Hitler chegou ao poder e cita, no contexto, o nazi Baldur von Schirach, antigo dirigente da juventude hitleriana que referiu em 1967:  A catástrofe alemã não adveio do que Hitler fez de nós, mas do que nós fizemos de Hitler. Ele não veio do exterior, não era como muitos imaginam uma besta demoníaca… Era o homem que o povo alemão pedia e que tornamos dono do nosso destino, glorificando-o sem limites. Um Hitler só surge no seio de um povo que tenha o desejo e a vontade de ter um Hitler.

Hitler não passava de um falhado: na formação académica, na candidatura à Escola de Belas Artes, incapaz de qualquer espécie de relacionamento social, sobretudo com as mulheres; era um homem com frustrações e cheio de ódio.

O tratado de Versalhes, a República de Weimar, a crise de 1929 e os ressentimentos da I Grande Guerra radicalizaram no ódio e na xenofobia o povo alemão. A propaganda e a violência fizeram o que faltava.

Não me parece que entre nós existam condições para pretensiosos candidatos a hitlerzinhos de opereta se afirmarem, devido à insignificância pessoal e porque o povo português no seu todo é tolerante e sente honra no sistema democrático.

Puxemos atrás a fita do tempo e seremos confrontados com desolação, miséria e repressão.

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