Os partidos políticos iniciam uma espécie de “mercearia politica”, com vista à constituição de listas candidatas às eleições legislativas.
A discussão e aprovação da lista de candidatos a deputados do PS por Aveiro, encabeçada por Pedro Nuno Santos (PNS), ficou marcada por uma forte contestação, teve 50 votos a favor, 26 contra e 2 em branco. Consta que, nunca tinha acontecido haver tantos votos contra, ainda mais, sendo encabeçada pelo secretário geral do partido. Mau agoiro.
Para o eleitor local, a expectativa é ver na sua constituição, pessoas de reconhecido valor, em cujos princípios se revejam, que motivem a participação eleitoral, que promovam a aproximação entre eleitos e eleitores, e uma responsabilização política mais direta do deputado perante o eleitor.
De facto, a ligação às pessoas, a expressão das identidades culturais/territoriais, o fomento de cidadanias locais responsáveis e qualificadas e a construção de políticas de baixo para cima, são “mandadas às urtigas”.
A estratégia política gera uma onda de “políticos paraquedistas”, que não estabelecem a sua base num local específico, mas vão conforme as possibilidades identificadas. Facto não exclusivo de um só partido, senão vejamos o passado recente.
Em 2009, Pinto Luz criticou um candidato “paraquedista” no Algarve, em 2024 foi ele mesmo “paraquedista” por Faro.
Em 2019, José Silvano, à data secretário geral do PSD, destacava que num total de 331 candidatos, havia apenas uma exceção, o que constituía um facto inédito.
Álvaro Beleza foi indicado pelo PNS, para encabeçar a lista do PS por Vila Real, nas últimas legislativas (2024), foi criticado pelas estruturas locais e recuou. Explicou que “seria o último dos paraquedistas”. A verdade é que não foi.
Amílcar Almeida foi anunciado, pela Comissão Política Distrital de Vila Real do PSD, como o escolhido para encabeçar a lista de deputados, poucos dias depois, a Comissão Política Nacional aprovou o nome de Ana Paula Martins, atual ministra da Saúde, para cabeça de lista.
Relegados os locais para segundo plano, mas com hipóteses de serem eleitos, é necessário arranjar argumento que vá de encontro a esta decisão…, que é uma honra e que é melhor assim.
Os deputados “paraquedistas” não são, definitivamente, uma espécie em vias de extinção.
Sem pouca ou nenhuma ligação ao distrito pelo qual concorrem, continuam a ser um clássico.
A verdade é que a lei eleitoral, no seu artigo 11º – Natureza do mandato, diz que os deputados da Assembleia da República representam todo o País, e não os círculos por que são eleitos.
A reforma desta lei deveria ser uma prioridade.
O que está em causa é alterar o equilibro entre o poder dos partidos e o poder dos cidadãos. O eleito sairá mais valorizado, passando a ser, também, um representante dos cidadãos, junto do partido.
“… Em geral, aquela mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros sertões lusitanos, não sabia topograficamente em que parte demoravam os povos seus comitentes”, dizia Camilo Castelo Branco em A Queda Dum Anjo (1866).



