A democracia representativa que abriu as portas ao crescimento económico, ao desenvolvimento e ao bem-estar coletivo parece ter entrado também em crise. A aparentemente democracia mais forte e robusta do mundo, a vivida nos EUA, que bebeu nos ideais iluministas da Revolução Francesa, parece estar a claudicar perante um punhado de plutocratas. E como o prémio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, alertou em artigo no The New York Times, corre o risco de a “concentração de riqueza no topo estar minando a democracia”.
O autor do livro que inscrevemos em epígrafe, um filósofo social australiano, a lecionar na Universidade de Oxford, Roman Krznaric (RK), proporciona-nos algumas respostas a que acedi em artigo no Ípsilon do Público do dia 28 pp. Perante a questão “A democracia e as economias têm de ser assim?” responde – “A História diz-nos que talvez haja outra forma”. Face à encruzilhada e à desesperança com que a humanidade se defronta ele vai buscar à História ensinamentos, ou pistas para a resolução dos problemas. No decorrer do artigo lembrei-me do conceito de História que Vitorino Magalhães Godinho nos deixou – ver o hoje à luz do passado a pensar no futuro.
RK considera que há soluções do passado para a economia ecológica e regenerativa, como também há métodos das “democracias comunitárias” do passado que podem ser integrados nas democracias representativas modernas. Exemplifica práticas conhecidas do Japão no séc. XVIII, com políticas descentralizadas que os colonos britânicos encontraram em regiões da Nigéria, no séc. XIX, ou soluções do funcionamento da democracia na Grécia Antiga. Fala-nos da “Convivência” na cidade de Córdova por volta do ano 1000, onde cristãos, muçulmanos e judeus conseguiram viver juntos em relativa harmonia. A certa altura da sua entrevista, RK contrapõe à guerra de todos contra todos a cooperação que sempre se evidencia em tempo de crise. E, consciente da importância de pensarmos mais no futuro, ele que acompanhou a sua filha, adolescente, numa manifestação, convida-nos a olhar o exemplo de alguns municípios canadianos onde, nas reuniões do executivo, há uma cadeira vazia, significando a importância dos futuros munícipes que devem estar presentes nas decisões do presente. Apela, por fim, à esperança, lembrando os que lutaram contra o regime de Salazar que agiram sempre com a esperança da mudança.





