Quarta-feira, 4 de Agosto de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Imperador Branco

Sempre houve civilizações, impérios, reinos e cidades imaginários e fantasiosos. Desde o reino Maravilhoso de Torga, ao de Prestes João e às cidades invisíveis de Italo Calvino, a criatividade humana mostrou não ter limites. Saramago suspendeu o devir na sua obra “As intermitências da morte” e muitos outros anteviram o futuro e recriaram o passado. […]

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Sempre houve civilizações, impérios, reinos e cidades imaginários e fantasiosos.

Desde o reino Maravilhoso de Torga, ao de Prestes João e às cidades invisíveis de Italo Calvino, a criatividade humana mostrou não ter limites. Saramago suspendeu o devir na sua obra “As intermitências da morte” e muitos outros anteviram o futuro e recriaram o passado.

Como Torga vou falar-vos de um Reino Maravilhoso, dirigido por um Imperador Branco ao que parece, sem muito de maravilhoso que possa anunciar-se.

É um Império onde apenas parece haver um assunto de que possa falar-se: dinheiro; medem-se o tempo e as oportunidades em dinheiro, o prestígio social e o triunfo em dinheiro, o trabalho e o comércio em dinheiro, os afetos, a cultura e toda a atividade humana em dinheiro; nas notas inscrevem o nome de Deus.

Não é o primeiro cidadão do Império que pergunta qual o valor do Louvre em notas de banco, qual o da Notre Dame e da Gioconda de Leonardo. Não interessa a obra, mas o que ela vale numa perspetiva em que tudo é transacionável.

Num ápice, quarenta e dois milhões de homens e mulheres ativos caíram no desemprego, milhões de cidadãos que contribuem para a sua riqueza do Império ficam à porta dos hospitais porque não têm vez. 

Quando os jovens ingressam no ensino superior têm acesso a empréstimos que, não raro, os deixam à beira da insolvência ao terminarem a formação. Obviamente que aceitam o primeiro emprego mal remunerado que aparecer.

Esse Império, que raramente vence uma guerra, armou-se até aos dentes, armou os cidadãos que têm capacidade bélica para matar o mundo inteiro e ficar ainda com armas e munições. Tem bombas mais do que suficientes para destruir a humanidade umas vinte vezes, como se algo ainda ficasse depois da primeira destruição.

A cor prevalecente é o branco. As restantes cores da paleta humana parece ser para banir; devem ser feias e desprezíveis.

É o Império do medo que constrói muros para se defender dos famintos que acreditam no el dorado. É o Império que acumula as mais elevadas taxas de erros judiciais e de encarceramento do mundo e quem mais priva os seus de liberdade. O Império, onde os cidadãos são homens bons e mereciam mais apoios sociais, acesso em condições de dignidade à saúde e ensino superior, onde mereciam um tratamento igualitário sem ter em conta a cor da pele.

O Imperador maquilha-se diariamente para parecer mais branco, mais loiro, mais sangue puro, mais iluminado. É o sistema dizem, como se o sistema fosse imposto por desígnio divino ou incontornável transcendência.

E nós, os que vivemos do outro lado do mundo, não sabemos o que dizer destes Impérios  imaginários, porque a curvatura da terra nos impede.

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