Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2022
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Meter água na água (I)

O aumento da população, a emergência das megacidades, a industrialização e, de modo particular, a agricultura intensiva e a pecuária contribuem, desde há muito tempo, para disparar o consumo de água em todo mundo.

-PUB-

A par destas transformações, as alterações climáticas, a desflorestação, os incêndios e o avanço dos desertos aceleram o agudizar desta situação preocupante. Também o degelo dos glaciares veio contribuir para a dessalinização do mar e a alteração das correntes marítimas, sendo preocupante, para nós, a evidente perda de força da corrente quente do Golfo que poderá originar verões muito quentes e invernos rigorosos na costa ocidental da Europa com consequências gravosas para a agroindústria.

Habituámo-nos a pensar que a ciência tudo resolve, mas nem sempre é assim, como se comprova com os efeitos sentidos por todo o mundo com a atual crise sanitária. A ciência ajuda, mas de pouco poderá valer-nos se não mudarmos comportamentos e racionalizarmos consumos.

Face à imprevisibilidade do regime anual de chuvas e à inevitabilidade de períodos longos de seca, deverá ser equacionada, com urgência, a recuperação da água já consumida com vista à sua reutilização, tudo em nome da sustentabilidade.

Para agravar o problema, somos confrontados com forte pressão na exploração, dos aquíferos e com a sua contaminação com pesticidas.

Enquanto o mundo enfrenta a escassez de água, as grandes multinacionais continuam autorizadas, a vender glifosato, vulgo herbicida, e outros pesticidas que aos poucos vão envenenando extensas áreas agrícolas e a atmosfera.

De pouco valerão as bondosas proclamações no Dia Mundial da Água, feitas pelos governos, organizações ambientalistas e a ONU, se continuarem a fechar os olhos ao uso de pesticídas e à desflorestação e inerente destruição dos ecossistemas. A disrupção destes poderá ter como consequência o surgimento de novas pandemias com efeitos catastróficos para a saúde humana e potenciar a deslocação de massas populacionais com efeitos sociais e económicos difíceis de controlar. A pobreza tenderá a agravar-se o mesmo sucedendo com a perda de qualidade de vida das populações.

Dados da ONU referem que à volta de 2.2 biliões de pessoas não dispõem de água potável, vivendo quase o dobro sem saneamento básico, ou seja, mais de metade da humanidade.

A escassez de água, enquanto fonte de vida, é suscetível de acender novos conflitos entre as nações e regiões do mundo, sobretudo quando a sustentabilidade de comunidades com milhões de pessoas estiver em causa.

Os paradigmas de organização económica e de consumo que seguimos terão necessariamente de sofrer grandes alterações sob pena de esgotamento dos recursos naturais.

Impressiona como o lucro das grandes multinacionais consegue condicionar a atividade política, pôr em causa a saúde pública e a sustentabilidade do planeta, o modelo de vida das sociedades e o futuro.

Qual o valor da água, da saúde humana, dos decisores políticos e da soberania das nações diante do dinheiro e da ganância dos poderosos?

Passamos a vida a meter água nas questões da água num mundo onde o dinheiro fala sempre mais alto.

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.