Assistimos, assim, nos últimos dias à criação de espaço para debate de certos temas que muito pouco, ou quase nada, dizem às pessoas, porque, estou convicto, não têm a ver com as suas preocupações, com os seus problemas reais.
O primeiro assunto que o governo, recentemente empossado, escolheu para elaborar Propostas de Lei a remeter à Assembleia da República foi o do acesso à nacionalidade portuguesa. É natural que numa qualquer pequena aldeia do Douro haja quem questione o que isso interessa para o seu bem-estar. Envolvidas que estão as pessoas nos tratamentos fitossanitários das vinhas há questões bem mais prementes que os preocupam e afligem. O ano molhado que trouxe míldio e farinhato, as cartas que receberam das firmas exportadoras, por abril, com mensagens semelhantes às do ano passado – não haveria lugar à compra de uvas para além do quantitativo a beneficiar -, esse, sim é um problema real. E sobrepõe-se aos que certos intelectuais lhes pretendem impor com as suas preocupações demagógicas. As manifestações do último fim-de-semana por uma casa a custos racionais testemunham um outro aspeto da realidade que as pessoas vivem e que, como referiu um dos que participaram na manifestação de Lisboa, «“não vemos nenhuma medida concreta a ser feita” por parte dos decisores políticos.» Mas usam e abusam de tempos de antena nos media, privados ou públicos.
Preocupante e chocante é também a mensagem que transparece dos cartazes empunhados na manifestação do Porto e que a RTP nos mostrou: “Cidade p´ra viver e não p´ro turista ver” ou “O Alojamento Local matou o Porto”. Nem o turismo pode ser assim tão detestado, nem o AL será a origem de todos os males. Não será caso para aturada reflexão? O ano proporciona-o, as eleições autárquicas serão um bom pretexto. E, como alguém escreveu: a nível local, será mais difícil enganar as pessoas com tiradas demagógicas e frases que passam bem no Tik Tok, daquelas que lavam o cérebro aos mais incautos.
Não é um mal de agora, bem sei. No entanto, parece que ultimamente se avolumou esta discrepância entre o país real e o país dos decisores políticos, entre os que se preocupam com o dia a dia e os que têm por missão encontrar solução para esses problemas. Aceite-se, pois, o desafio.





