Até aquele jeito de dar uma boleia, mas não ser capaz de um pequeno desvio para deixar o felizardo um pouco mais próximo do destino, se encontrava nos mais generosos. O convívio com alguns mais próximos permitia compreender melhor o seu sentir.
Ocorreu-me isto quando vi referências a uma comentadora de um canal televisivo que, a linguagem utilizada não o escondia, insultou descaradamente uma parte significativa de portugueses. Sofia Palma Rodrigues, a propósito dos incêndios com que o país se tem confrontado, qualificou o interior como “abandonado, envelhecido, em que não há esperança, em que as pessoas são pobres e isoladas e têm problemas de saúde mental” e “isolamento brutal das pessoas que não vivem em Lisboa, Porto ou na Orla costeira de Portugal, em que o fogo surge quase como último reduto para dizer: ainda estou aqui”.
Lembram-se os leitores deste meu Visto dos qualificativos de José Cid a respeito dos transmontanos: «deviam fazer uma muralha da China entre Trás-os-Montes para não deixarem passar alguma música que vem de lá. (…) Vêm de excursões, pessoas que nunca viram o mar, pessoas assim, medonhas, feias, desdentadas. E isso, efetivamente, não é Portugal». Para aquela, os portugueses do interior são uns tristes, economicamente e mentalmente, merecedores de todo o desprezo, pois se servem dos incêndios para dizer que existem. Mas ela tem a sua razão, já que a pecha de olhar o país como sendo uma estreita faixa que se estende de Braga a Setúbal persiste e continua dominante nos detentores do poder no Terreiro do Paço. O desdém do músico ribatejano só pode ter explicação na sua falta de conhecimento da cultura trasmontano-duriense. Desconhece Giacometti e o seu trabalho de recolha e inventariação de música popular portuguesa, designadamente, do nordeste transmontano. Para se afirmar também se lisboetizou – acontece com muitos. Só a sua é verdadeira cultura. Nem todos assim pensam. Mas não precisava de insultar.
O interior, as regiões de baixa densidade, assim classificado, agora, sempre despertaram a alguns um sentimento de desdém. “São as berças”! “Isto aqui fica tão longe”, dizem alguns quando chegam! Há dias, alguém se manifestou surpreendido por nos ver trabalhar com o computador. Por tudo isto, só mesmo o desabafo do jornalista Vitor Andrade no Expresso – «não há pachorra para mentecaptos».




