Terça-feira, 7 de Dezembro de 2021
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O “Bombeiro”

As filarmónicas da província eram os berços mais ou menos baloiçantes das sensibilidades rusticanas com as quais tive a felicidade de contemporizar.

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 Há histórias hilariantes que só de pensar nelas dá vontade de rir.

Na verdade, há muitos filarmónicos que possuem o dom da fertilidade imaginária de grandes contadores de histórias, talvez porque a música lhes faculte a entrada de um mundo fantasmagórico, de fantasias com mordacidade sempre à mistura.

Desde muito cedo, antes de ser professor, senti o cheiro da sala dos instrumentos e ouvi narrativas de venturas e desventuras, a história de hoje é a história do senhor Ventura. O senhor Ventura era um homem sempre feliz a rondar a casa dos setenta anos, embora o somatório das façanhas lhe duplicasse a idade. 

Era um filarmónico ativo e quase tudo o que acontecia na coletividade tinha a marca da sua mão, o espírito da sua imaginação, a argúcia das suas matreirices.

Como músico…bem, aqui é que porca torce o rabo. Nem era bom nem mau, simplesmente batia no bombo com a força da sua alma e com tal entusiasmo que mais do que uma vez estoirou a pele do instrumento.

A taberna do Mestre Sérgio era uma espécie de tertúlia onde se juntavam músicos e adeptos das duas coletividades da terra. Assim, as discussões eram sempre acaloradas sobre os eventos passados, presentes e futuros.

Defendia o Ventura, com bigode de rufia e sempre com o copo triunfante na mão: “o bombo é o mais importante instrumento de uma filarmónica, porque sem ele, não há marcha, não há harmonia no andar,” e continuava: “vocês, não são desse tempo, mas em 1945, durante as comemorações do fim da Grande Guerra, eu era o músico do bombo e a nossa banda tinha que desfilar com mais quatro na estrada de Santa Luzia. A nossa era a última e a meio havia uma ponte onde só passavam dois músicos a par. Era ali que os da frente e os de trás perdiam o contacto com o bombo…era a tragédia! As outras filarmónicas paravam assim de tocar com vexame e vergonha, mas eu tive uma ideia, não fui pela ponte, entrei no rio e no meio dele parei e com a água pela cintura, fui sempre marcando forte a cadência pendular …estão a ver o filme? A nossa filarmónica foi a única que não parou de tocar até ao fim…”

Entretanto, na taberna do Mestre desenrolava-se uma outra conversa sobre os ensaios para próxima temporada e em que a par de uma peça composta por um filarmónico da terra (que se dizia estar pronta para a estante), havia ainda para “atacar” uma Abertura de Verdi (grande compositor italiano). O amigo Ventura que só ouvira “abertura, mas só do “verde”, apressou-se a perguntar: “estão a falar da Abertura do Verdi…é do verdi branco ou do tinto”… a risada encheu a taberna de ressonâncias prenhes de alegria e felicidade e o vinho escorria fácil pelas gargantas dos músicos.

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