Domingo, 19 de Setembro de 2021
Victor Pereira
Pároco. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Bullying Parental

Ajudemos a florir o bem e a riqueza que cada ser humano tem dentro de si

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Não tenho uma visão negativa da natureza humana, até porque acredito, pelos relatos bíblicos, que tudo foi feito com o cunho da bondade de Deus, e Jesus sabia sempre despertar essa bondade nas pessoas com quem se relacionou e encontrou. Mas também vejo que a natureza humana é imperfeita e tem requintes de malvadez e crueldade surpreendentes. Temos uma arte dentro de nós, que gostamos de praticar de vez em quando, que é a arte de infernizar a vida aos outros, com perseguições, provocações e humilhações. Arte que se pode aprender a exercer dentro da família, como continuamente desvalorizar ou desprestigiar o outro, não lhe reconhecendo nenhum valor. Aliás, como sabemos, a família é onde se fazem das mais belas experiências de vida, mas também pode ser o espaço onde se fazem das mais dolorosas, inolvidáveis para o resto da vida.

Em tempos, lembro-me de um testemunho de Frei Bento Domingues onde contava como a sua família olhava para ele com muita desconfiança. Os irmãos rapidamente encaixaram num ofício, dele dizia-se que não tinha jeitinho nenhum para nada, o que seria dele! Recentemente, numa entrevista ao Expresso, o grande ator Anthony Hopkins, galardoado este ano com o óscar de melhor ator, afirmava que o pai “não evitava dar-nos ‘facadas’. Já quando eu era garoto, disse-me que eu era um inútil e que não sabia o que iria ser de mim”. Nem imaginavam as suas famílias como estavam rotundamente enganadas. Como padre, recebo algumas queixas de filhos em relação aos pais, expressando que foram vítimas, durante alguns anos, de violência física, verbal e psicológica de pais que tinham pouca estima e consideração por eles. Violência que moldou a sua personalidade e forma de estar na vida, sentindo inutilidade, insignificância, pouca confiança em si mesmos e uma baixa autoestima. Tudo isto talvez se possa chamar bullying parental, que deixa marcas profundas para o resto da vida.

Imagino, numa fase da vida tão delicada como é a adolescência e a juventude, o que será crescer a ouvir continuamente “não vais prestar para nada”, “não tens jeitinho nenhum para nada”, “vais ser um falhado”, “vais ser um triste”, e tantas outras afirmações estúpidas que inventámos para desclassificar os outros, sabendo perfeitamente que todas as pessoas têm dons, habilidades e talentos. Que dentro da família não se deixe de prestar atenção a este bullying parental, que jamais deveria existir. Ajudemos a florir o bem e a riqueza que cada ser humano tem dentro de si.

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