Terça-feira, 21 de Maio de 2024
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Eduardo Varandas
Eduardo Varandas
Arquiteto. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

O Padre Cruz

No percurso que normalmente utilizo a caminho da instituição onde, há anos, presto a minha colaboração, passo regularmente no Largo Trindade Coelho, também conhecido por Largo da Misericórdia, em Lisboa, onde se situa a Igreja de São Roque, que visito frequentemente, para aí fazer as minhas meditações e apreciar a sua riqueza patrimonial.

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Numa dessas visitas, reparei num pequeno livro, existente na vitrina, colocada numa das portas de entrada, intitulado O Santo Padre Cruz, de Maria da Conceição Barreira de Sousa, editado pela 25, que despertou a minha curiosidade e me levou a adquiri-lo.

Desde a infância, habituei-me a ouvir da minha saudosa mãe, referências elogiosas a esta figura ímpar da Igreja, de quem ela era devota confessa, tendo, inclusivamente, participado, algumas vezes, nas celebrações eucarísticas, por ele celebradas, na Igreja dos Congregados, no Porto. O referido livro de tamanho reduzido, mas de grande importância para a compreensão da sua vida e obra, lê-se de uma penada. Confesso que fiquei agradavelmente surpreendido por tudo quanto nele está contido, permitindo-me confirmar as suas qualidades extraordinárias de dedicação aos pobres e excluídos da sociedade, a que consagrou toda a sua vida.

Para melhor compreensão daquilo que venho afirmando, permitam-me que conte dois episódios significativos, narrados pela autora desta obra.

Certo dia estava ele na estação do Cais do Sodré para ir de comboio até Belém, visitar um doente, e quando se encontrava a comprar o bilhete de 3.ª classe, foi abordado por um pobre pedindo-lhe esmola. O Padre Cruz, cheio de pena, respondeu-lhe que tivesse paciência, mas daquela vez não tinha senão a quantia exata para o seu bilhete. Provavelmente, conhecendo a fama do padre com quem o pedinte estava a falar, não se acanhou, sugerindo-lhe que fosse a pé, porque era tão perto. E assim aconteceu. Lá foi ele a pé até ao seu destino, abdicando da compra do bilhete de comboio para dar o seu valor ao pobre homem.

Noutra ocasião, estando ele já no comboio, apareceu o revisor solicitando-lhe o respetivo título de transporte, porém, procurando o passe que lhe tinha sido concedido pela CP, para viajar por todo o país, por mais que procurasse este não aparecia. Cansado de esperar o revisor resmungou que teria de pagar bilhete, só que ele também não tinha dinheiro, uma vez que já o havia distribuído por quem mais precisava. Assim sendo, o revisor admoestou-o dizendo-lhe que teria de sair na próxima estação. Obediente, o Padre Cruz, assim o fez. O problema é que depois de ele sair o comboio não andava. Vieram mecânicos averiguar se haveria alguma anomalia, mas nada conseguiram constatar. Entretanto, o chefe da estação inteirando-se do que se estava a passar, como o conhecia, conduzi-o novamente à carruagem donde se tinha apeado e o comboio retomou a sua marcha normal.

Estes dois episódios revelam que o Padre Cruz foi em vida uma figura exemplar pela sua humildade e abdicação dos bens materiais, enfrentando, não raras vezes, situações difíceis no período conturbado da 1.ª República, denotando, também, ser dotado de algo transcendente, cuja compreensão escapava ao conhecimento da ciência.

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