Segunda-feira, 2 de Agosto de 2021
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Os novos censores

Tempos houve em que a opinião, a investigação da História e o aprofundamento dos regimes democráticos se fazia nas universidades, nos centros de cultura e conhecimento através de estudiosos e pensadores e de movimentos sociais.

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Hoje, a opinião nasce de geração espontânea nas redes sociais, sem estudo, sem profundidade dando cada um a opinião que lhe parece adequada, com frequência sem saber do que está a falar. Não tenho dúvidas de que poderemos pagar cara a afronta deste novo paradigma.

Vem isto a propósito da destruição dos símbolos existentes, que poderão revestir a forma de estátua, de monumento, escultura, pintura ou outras.

Sempre que um homem é julgado fora do seu tempo e das motivações inerentes, do modo como agia e organizava o seu pensamento, o resultado tende a ser desastroso.

É perigosa esta deriva de revisionismo histórico forjada por movimentos de aparência acéfala sem ponderação e conhecimento.

Corremos sérios riscos de que os heróis dos descobrimentos como Bartolomeu Dias, Pedro Álvares Cabral, Vasco da Gama e o Infante D. Henrique que corporizou o sonho da expansão, sejam destronados dos lugares de destaque na História.

O mesmo sucederá com pintores, escritores, filósofos, músicos e outras figuras proeminentes porque agiram e pensaram de acordo com o seu tempo e com numerosos livros que poderão ser postergados pela ignorância dos novos censores, saídos das catacumbas de uma espécie de novo poder inquisitorial.

Um dia tudo voltará ao seu lugar, todavia os novos fazedores de opinião terão destruído bem mais do que seriam capazes de construir.

Não tenho dúvidas que foi gente como esta que terá ateado fogo à biblioteca de Alexandria, que censurou livros e obras de arte e que levaria ao patíbulo Miguel Ângelo em consequência dos nus divinos da capela Sistina.

Os mortos, que viveram os dramas e os desafios do seu tempo, já nada contribuem para   construir o futuro do mundo, apesar do valor simbólico do seu exemplo e do pensamento, que serviu de lastro à evolução da humanidade..

A futuro constrói-se com os vivos, com os movimentos sociais humanistas que visam alcançar melhor  vida, pão e paz para todos.

Por que não se preocupam com a fome no mundo, com as cleptocracias que um pouco por todo o lado condenam milhões à fome e à miséria, com os regimes autocráticos e despóticos.

Se a Europa foi colonialista – jamais me ouvirão uma palavra  na defesa do colonialismo – e tem os defeitos que lhe apontam porque desejam aqui viver Europa milhões de cidadãos provenientes de todos os continentes.

Por que não têm a capacidade e a coragem de afrontar os regimes que condenam o seu povo à miséria, à fome sem acesso à educação, à saúde e ao bem estar?.

Há muito por onde começar de modo a converter o mundo num lugar para todos.

É tempo de agir na senda do pensamento de Platão: Os que não participam na vida social sujeitam-se a ser governados por gente inferior a eles.■

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