Segunda-feira, 28 de Novembro de 2022
Adérito Silveira
Adérito Silveira
Maestro do Coral da Cidade de Vila Real. Colunista n'A Voz de Trás-os-Montes

Outono das castanhas

Naquele dia o vento gemia por cima dos telhados. O frio era de rachar. Os queixos tiritavam de frio. Os bafos subiam em ziguezagues.

-PUB-

E os cavalos albardados do Zé Cigano, saindo de casa, imponentes e bem tratados relinchavam baixo em abanos cadenciados do rabo, enquanto burras magricelas dos ciganos passavam ligeiras, sacudindo as orelhas de frio, atrás de uma esquina surgia um vulto que assobiava uma toada monocórdica da banda da terra. Era um velho músico que com o sacho às costas descia lânguido a rua da Moira.

E o chão, antes florido, parecia agora de calma e santidade, passando os mendigos de vez em quando porque faziam parte das paisagens do dia-a-dia. A “Ana pobre” descia a rua das Flores com um saco grande às costas porque ela sabia da generosidade das pessoas nesse dia de santidade e reconciliação espiritual. À tasca, já chegava derreada, com o peso das esmolas, não recusando a oferta de um copázio bem medido. Era atrevida a Ana pobre, porque já na tasca ela escorropichou um copo de um outro pobre, consolado, comendo lépido algumas castanhas ainda a fumegarem.

Ah! Nenhuma fruta me leva tanto a pensar como aquela que a canalha procurava enterrada na frescura da terra. Dentro, viviam vermes de várias cores e espécies que se deixavam comer na sofreguidão dos apetites.

Lembro, num outono, uma fogueira onde as castanhas rebentavam de contentamento, reforçadas com um mata-bicho emborcado na taberna da senhora Libânia. À saída, estalavam os lábios de prazer, depois da aguardente misturada na broa entrar nas goelas sedentas dos bebedores. E um beberrão soltava-se nas palavras emborrachadas: “Esta orgia doirada, vamos fazê-la na horta, nesta tasca de entrada, com castanheiros à porta…”

Uma moçoila, bem solteirona tocada já pela pingoleta, arreganhava os dentes cantando: “a castanha no ouriço, é de toda a gravidade, é como a moça solteira, na flor da mocidade”. Riram todos os presentes porque sabiam que a rapariga nunca arranjaria homem que lhe coçasse as costas arredondadas.

Dentro da tasca, ouvia-se o tique-taque de um velho relógio de ébano, dissolvido no negrume dum canto, gemendo nas badaladas das sete da noite.
Na manhã do dia de todos os santos, era este o ritual que marcava a vida da comunidade de Mateus.

Na luz que nos conduz e alumia, os anos passam velozmente e as saudades são imensas à medida que aumentam os cabelos brancos, ou a falta deles se faz notar. Algumas pessoas são dignas de uma saudade que até dói e que nos faz interromper o caminho que nos falta percorrer, outras estão vivas e são felizes, dignas do nosso registo de memórias. São como sonetos recitados de cor em noites de luar.

Mais Lidas

Subscreva a newsletter

Para estar atualizado(a) com as notícias mais relevantes da região.