Quarta-feira, 3 de Junho de 2026
António Martinho
António Martinho
VISTO DO MARÃO | Ex-Governador Civil e Ex-Deputado

Outras vindimas

Na caminhada desta madrugada cruzei-me com carrinhas e tratores carregados de uvas, encontrei, ali e acolá, vindimas a decorrer, em azáfama própria destes dias de setembro.

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Seria normal ouvir cantigas nestas encostas do Douro. Não, não se ouvem, agora, as cantigas de outros anos. Por que será? O Douro está mais triste. Todavia, continua a contribuir de modo muito significativo para a riqueza nacional – os vinhos daqui exportadas correspondem a mais de 62% do total de exportações do setor – 600 milhões de euros em 966 milhões. São dados oficiais relativos a 2024. Mas há outras vindimas que evidenciam bem outras formas de dar muito ao país.

Ocorreu-me esta reflexão quando iniciava este Visto a propósito da homenagem que o Município de Sabrosa, o Centro de Estudos e Investigação em Segurança e Defesa de Trás-os-Montes e Alto Douro (CEISDTAD) e a Freguesia de Paços acharam por bem fazer ao General Loureiro dos Santos, na sua terra natal, Vilela do Douro, ali, onde o planalto começa a descer para o rio, formando o vale que os homens, outros, construíram através dos tempos e a UNESCO classificou Património Mundial. Coevo de Torga com quem se cruzou bastas vezes, tinha, como ele, um forte sentimento de ligação ao sítio, ao terrúnculo onde nasceu, este nosso Douro. Foi a Câmara de Sabrosa e a UTAD que Loureiro dos Santos quis valorizar quando desafiou estas instituições a criar, juntamente com o Exército Português, o CEISDTAD. Especialista em geoestratégia, foi com grande capacidade de antecipação que lançou a ideia, a fez germinar e crescer, demonstrando um esclarecido pensamento visionário, capaz de antecipar problemas que hoje são bem visíveis e sentidos, como bem lembrou o atual Diretor – Engenheiro João Pavão, citando artigo do General no Público de 17 de junho de 2015: “…os conflitos militares envolverão combates no ciberespaço, alguns deles de tal modo demolidores que, paralisando as infra-estruturas críticas do adversário, o poderão obrigar a ajoelhar.” O CEISDTAD, pese embora as dificuldades inerentes a quem não nasce em Lisboa, tem feito jus ao pensamento do seu fundador, como se vê, a título exemplificativo, em “a importância do conceito de ciberresiliência e necessidade de metodologias de gestão e análise de risco da informação”, assim como em “atividades conducentes promover a articulação e a partilha entre a academia, as Forças Armadas e a sociedade civil”, objetivos que persegue.

Mais um aspeto em que o Douro, num outro tipo de vindimas, contribui para a riqueza nacional, expresso no relevante papel dos seus filhos. Como Torga foi nas letras, Loureiro dos Santos foi-o na visão estratégica, ele que aí se especializou e que a sua terra, agora, quis lembrar e homenagear.

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