O título, como sabem, é “”, tratando-se de uma coletânea de contos originais, tendo o primeiro conto emprestado o nome ao livro. Apresentei-o na Biblioteca Municipal do Montijo, numa tarde abrasadora.
Dentro do pequeno discurso de agradecimento, estava uma máxima que, por diversas vezes, venho repetindo: “Povos cultos são povos desenvolvidos.” Na premissa do silogismo, reforço que a direção de causalidade é a invocada, pois nem sempre os mais desenvolvidos são cultos. Nem sempre os mais ricos são cultos, pois a falta de cultura já por si é manifesto de pobreza. Um bruto olha para uma rocha e vê um calhau; um geólogo olha para a mesma rocha e vê nela um livro. Um bruto olha para uma árvore e vê nela um mictório; um biólogo olha para a mesma árvore e encontra nela um correspondente de sonhos e de sentimentos. Um bruto olha para uma cidade e vê nela uma oportunidade de saque; um cidadão olha para a mesma cidade e vê nela parte do seu espírito.
A cultura é um património, na medida em que nos foi legado e sobre o qual não podemos escusar a obrigação de o transmitir. Durante o agora, pareceu nossa. Amanhã, os nossos padrões, valores e elementos culturais serão dos nossos herdeiros. Que compreenderão o nosso zelo, o nosso carinho, o nosso esforço, a nossa imperfeição, o nosso desmazelo, a nossa incúria, a nossa distração.
Xenofonte contava – contava-se – que compreendia a história económica de qualquer local fazendo três perguntas aos habitantes de uma terra. Qual o mais rico? Qual o maior edifício? Qual o objeto mais antigo? Pois o mais rico mostrará o habitante que teve a atividade mais valorizada no último meio século. O maior edifício mostrará, como os anéis alargados dos troncos serrados das árvores relativamente aos anos chuvosos, o período de maior influxo de riqueza, altura em que o edifício foi alçado. Mas o objeto mais antigo mostrará uma intimidade ainda maior – mostrará o grau de civilização da terra: quanto mais antigo o objeto preservado, mais civilizada será essa terra. E não se esqueçam que os gregos consideravam a civilização o espírito que unia o Peloponeso.
Portanto, terras que preservam o património, países que preservam as tradições, Ministérios que não condenam a liberdade das companhias de teatro, são espaços cultos. São espaços que, independentemente das métricas, do dinheiro, ou do contributo ao deus PIB, são espaços vivos, cultos, desenvolvidos e, por fim, ricos.
Mas, os outros espaços – aqueles que abatem o velho, que cospem nas tradições, que as deixam apodrecer nos armazéns mais distantes, bafientos e empedernidos, os ministérios que premeiam os artistas submissos – esses espaços maoístas nunca serão cultos. Serão ricos sem satisfação, com as melhores médias sem contentamento, com a mesa cheia e sem sabor. Dormirão no seu estertor. E aí ouvirão alguém perguntar-lhes “Será que dormi enquanto os outros sofriam?” (como Beckett, na magistral peça “À espera de Godot”).






