Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2022
Ernesto Areias
Advogado. Colunista de A Voz de Trás-os-Montes

Salazar: 60 anos do início da guerra em Angola (V)

O ano de 1961 assinala o recrudescer dos anos de chumbo do Estado Novo.

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Em pouco tempo, ocorreu o assalto ao navio Santa Maria, a morte de Lumumba, os episódios do 4 de fevereiro em Luanda, o início da guerra em Angola e o salto para França.

Os primeiros acontecimentos estão relacionados com o início da guerra, o último é causa da intensa desagregação do mundo rural e do despovoamento do Interior.

Há muito que se divisava a guerra em Angola, pois os movimentos de Libertação tinham nascido nos anos 50. A União das Populações do Norte de Angola (UPNA) iniciou a sua atividade em 1954, vindo a abreviar o nome para União dos Povos de Angola (UPA). Foi a UPA de Holden Roberto e o Partido Democrático de Angola que deram início ao conflito, fundindo-se na FNLA; em 1956 tinha nascido o MPLA, responsável pelo 4 de fevereiro e interveniente no conflito e, mais tarde, a UNITA que atuou no leste.

A guerra teve início no dia 15 de março na denominada Zona Sublevada do Norte, que corresponde aos territórios dos distritos do Zaire, Uije e Quanza Norte 

O regime ignorou os sucessivos avisos, alguns provenientes dos USA e não preparou a eclosão do conflito.

Era tão incipiente a nossa defesa, que apenas contávamos com 5 mil militares para um território com mais de 1 milhão de Kms 2.

A guerra teve como efeito o afastamento de Portugal da política internacional, verificando-se a irrelevância da Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) que limitou a sua ação malfazeja à repressão das populações e dos opositores, acolitada por cerca de 200 mil delatores estipendiados, a quem o povo denominou prosaicamente por bufos.

Depois de ignorar todos os avisos, o regime deixou andar até ao dia em que foi surpreendido pelos massacres dos colonos portugueses, barbaramente chacinados com as famílias e alguns serviçais sem que ninguém pudesse socorrê-los. As imagens que a RTP e a CBN recolheram no território ainda hoje nos chocam.

Seguiu-se o isolacionismo, o corte de relações diplomáticas com os países que apoiavam a causa da Libertação e mesmo até mal estar e amuos com o Vaticano e o papa Paulo VI.

Com a guerra, adiou-se para 1974 o sonho da democracia, a repressão aumentou, a pressão sobre as famílias e a vigilância do regime através da PIDE e da Igreja robusteceram-se e a juventude foi a grande vítima dos erros do regime. 

Ao longo de décadas foram-nos vendendo o mito de Salazar como grande estadista quando, na verdade, não passou de um provinciano tacanho afastado do seu tempo.

Os traumas da guerra foram tão impressivos, que até hoje, a sociedade portuguesa não conseguiu abrir um debate histórico sério, desapaixonado sobre a temática que permita exorcizar os fantasmas que continuam a flanar pelo nosso desconforto coletivo.

Uma palavra de apreço para os militares portugueses que deram o melhor do seu esforço e esperança a uma pátria que não soube merecê-los; uma palavra de homenagem e apreço também para os espoliados do Ultramar, a quem coube em sorte viver um tempo de equívocos que Salazar tão bem soube explorar, indiferente ao seu esforço e destino. 

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