Salazar, que raramente aparecia, estava presente sobre os quadros das escolas primárias com Cristo ao meio e Carmona, mais tarde Américo Tomás, do outro lado como se o divino mestre continuasse ladeado pelo bom e o mau ladrão.
À entrada da escola cumprimentávamos em uníssono o professor com a saudação nazi, metáfora da nossa inocência e da maioria dos professores que desconheceriam o significado do gesto e o serviço que prestavam ao regime.
E assim, com esta omnipresença sibilina se foi construindo o mito na base de um império romântico, de uma educação dirigista e de algumas falácias que o endeusaram como a crença de que nos livrou da II grande guerra.
A ausência, a timidez, o percurso errático e opaco, a manha, a astúcia ajudaram a construir este deus menor que à luz do seu pensamento tacanho nos encaminhou suavemente para a cauda da Europa.
O ditador referia: Os povos antigos ou são tristes, ou são cínicos. A nós portugueses, coube ser tristes.
Creio que terá alguma razão: o povo era triste, melancólico. Tinha a tristeza do divino que não entendia e a da pobreza que o maculava. O cinismo, esse, concentrou-o todo na sua personalidade e no modus operandi do regime.
No dizer de Fernando Dacosta, corrompia os que o serviam para melhor o servirem. Não era corrupto, era corruptor. Sabia exatamente com quem fazê-lo. O seu olhar penetrava nos outros como um laser de gelo. Hesitações, trejeitos, lampejos, mesuras, tudo destrinçava, silenciava – hierarquizava.
Seguindo este raciocínio, também, Souto Mayor Cardia referia que vassalizava todos os que o serviam.
No dizer do filósofo José Gil, Salazar tinha um pensamento coerente, um discurso moral. Pretendeu disciplinar o povo pelo silêncio, pela invisibilidade. É o seu nome, não a sua imagem que se torna objeto de culto. Quis ser sublime do anonimato e no desaparecimento.
Na sombra do mito flanavam Maria de Jesus que fazia a vida negra a todos de quem não gostava, tendo conseguido a demissão de vários ministros e agentes da administração e Silva Pais e Barbieri Cardoso, diretores da PIDE.
Era cínico e dotado do humor negro dos que não riem.
Dias antes da inauguração do Ritz quis visitá-lo. Quando tentaram encaminhá-lo para os pisos superiores exigiu subir no elevador monta-cargas. Quando da inauguração da Gulbenkian é conhecido o comentário sobre a escultura colocada no jardim: O Gulbenkian está bem, mas o Azeredo tem as garras muito afiadas. Confundia assim a águia da escultura com Azeredo Perdigão, administrador da Fundação.
Assim, aos solavancos, com cinismo e astúcia se construiu o mito, que Natália Correia na peça Homúnculo (1965), uma espécie de teatro do absurdo, reduzia à imagem de el- rei Lazarim que governava a Mortocália, epónimo do país que é o nosso.




